Em uma era de assepsia digital e fachadas sociais impecáveis, a adaptação de David Wnendt para o romance de Charlotte Roche, ‘Wetlands – A Lagoa’, chega como um antídoto anárquico e visceral. A narrativa acompanha Helen Memel, uma jovem de 18 anos cuja relação com o próprio corpo e seus fluidos beira o celebratório. Para Helen, as normas de higiene são convenções burguesas a serem sistematicamente demolidas. A história ganha tração quando um acidente de depilação íntima, combinado com uma manobra de skate mal calculada, a leva para um quarto de hospital com uma fissura anal. Este confinamento forçado se torna o palco central para suas memórias, fantasias e, mais crucialmente, seu plano mirabolante para reunir os pais divorciados.
Longe de ser apenas um exercício de provocação pelo choque, o filme mergulha na psique de sua protagonista, interpretada com uma entrega física e emocional notável por Carla Juri. O hospital não é uma prisão, mas um laboratório. Nele, Helen explora os limites da paciência da equipe médica, seduz um enfermeiro compreensivo chamado Robin e revisita, através de flashbacks fragmentados, uma infância marcada pela obsessão de sua mãe pela limpeza e por um trauma familiar que serve como a chave para seu comportamento. Sua cruzada contra a higiene é, na verdade, uma busca desesperada por uma pureza de outra ordem: a reconexão com um núcleo familiar desfeito. A sujeira que ela abraça é uma antítese direta ao ambiente estéril e emocionalmente vazio em que cresceu.
A direção de Wnendt é cinética e pop, utilizando uma paleta de cores vibrante e uma montagem ágil que transforma as explorações corporais mais explícitas em sequências de uma estranha beleza plástica. A câmera não se desvia do que é considerado grotesco, mas o enquadra com uma curiosidade quase científica, despida de julgamento moral. O design de produção e a trilha sonora punk-rock complementam a energia rebelde de Helen, criando um universo coeso onde o cultivo de fungos em um vegetal ou a experimentação com odores corporais são atos de afirmação pessoal. O humor é ácido e constante, funcionando como um mecanismo que permite ao espectador processar as imagens mais confrontadoras sem sucumbir à repulsa.
De forma mais aprofundada, a jornada de Helen pode ser entendida através do conceito do abjeto, aquilo que é violentamente expelido da ordem simbólica e cultural, mas que permanece como um resíduo perturbador do nosso próprio ser. Helen não apenas tolera o abjeto, ela o incorpora, o investiga e o transforma em sua linguagem. Ao se fundir com tudo o que a sociedade e sua própria mãe rejeitam — a sujeira, os fluidos, a decomposição —, ela realiza um ato radical de autoconhecimento. É uma tentativa de curar uma ferida psicológica através de uma imersão total na materialidade do corpo, expondo a fragilidade das fronteiras que construímos entre o eu e o outro, o limpo e o impuro.
No final, ‘Wetlands – A Lagoa’ se revela como um estudo de personagem complexo e surpreendentemente afetuoso. Sob a superfície de transgressão e escatologia, pulsa uma história sobre a dor da negligência e a criatividade disfuncional que pode nascer dela. A obra se posiciona como um retrato singular da adolescência feminina, afastando-se de qualquer idealização para apresentar uma visão crua, divertida e, em seus próprios termos, profundamente humana sobre como lidamos com nossos traumas, nossos corpos e o caos inerente à vida. É uma peça de cinema que permanece na pele, um exame inteligente sobre a matéria da qual somos feitos e as histórias que ela pode contar.




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