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Filme: "Tartuffe" (1925), F.W. Murnau

Filme: “Tartuffe” (1925), F.W. Murnau

Murnau adapta Molière em “Tartuffe” (1925), expondo a hipocrisia e a manipulação da fé. Uma narrativa metalinguística sobre a dualidade humana e os perigos da crença cega.


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F.W. Murnau, mestre do expressionismo alemão, revisita Molière em “Tartuffe”, não como mera adaptação, mas como uma metalinguagem sobre o poder da hipocrisia e a manipulação da fé. O filme se desdobra em duas narrativas interligadas. Um jovem, para dissuadir sua irmã de se casar com um homem lascivo e interesseiro, decide exibir para ela uma fita cinematográfica. Eis que surge a peça de Molière, transposta para as telas.

Orgon, burguês abastado, é completamente subjugado pelo falso devoto Tartuffe. Este, com sua retórica piedosa e semblante angelical, conquista a confiança de Orgon, drenando seus bens, seduzindo sua esposa e manipulando toda a família. Elmire, a esposa de Orgon, percebe a impostura e tenta, através de um estratagema, revelar a verdadeira face de Tartuffe ao marido cego pela fé. A cena da tentativa de sedução de Elmire, sob o olhar oculto de Orgon, é um primor de tensão e ambiguidade moral.

A tragédia, permeada pelo humor ácido característico de Molière, serve como um espelho da sociedade da época (e, por que não, da contemporânea), onde a aparência de virtude frequentemente mascara intenções escusas. Murnau, ao emoldurar a peça dentro de uma narrativa maior, potencializa a crítica social. O filme questiona a facilidade com que as pessoas, em busca de conforto espiritual ou vantagens materiais, se deixam enganar por falsos profetas. A câmera de Murnau, com seus jogos de luz e sombra, captura a essência da dualidade humana, a luta entre a razão e a crença cega.

A obra, para além da crítica social, tangencia o existencialismo sartreano. A fé, quando desprovida de questionamento e discernimento, torna-se uma prisão, uma escolha que, ironicamente, restringe a liberdade individual. Orgon, ao entregar seu destino nas mãos de Tartuffe, abdica de sua própria autonomia, transformando-se em um fantoche nas mãos de um mestre da dissimulação. O desfecho, com a intervenção oportuna do Rei, restabelece a ordem, mas deixa pairando a dúvida: quantas vezes, na vida real, a justiça tarda ou falha em desmascarar os Tartuffes que nos cercam? “Tartuffe” de Murnau é, portanto, um filme que transcende a mera adaptação literária, tornando-se uma reflexão profunda sobre a natureza humana e os perigos da fé cega.


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