‘Things I Like, Things I Don’t Like’, a nova obra de Jean-Pierre Jeunet, mergulha na complexidade da percepção individual com a assinatura visual e narrativa que se espera do diretor. O filme apresenta a jornada de Adèle, uma arquivista meticulosa cuja vida é organizada em torno de uma catalogação obsessiva de suas afinidades e aversões. Longe de ser um mero passatempo excêntrico, essa catalogação atua como o princípio fundamental que rege sua interação com o mundo. Desde o padrão das rachaduras em uma calçada antiga até a cadência de uma frase dita por um desconhecido, tudo é registrado com uma precisão quase científica em inúmeros cadernos, que servem como sua biografia idiossincrática e seu filtro particular para a realidade.
Jeunet constrói um universo onde o mundano se transforma em extraordinário através do olhar de sua protagonista. A câmera passeia por paisagens urbanas e interiores repletos de detalhes, cada um parecendo ter um peso específico na escala de preferência de Adèle. Essa atenção granular não é apenas um artifício estético; ela atua como um motor narrativo, impulsionando a protagonista a fazer conexões entre eventos, pessoas e objetos que a maioria das pessoas simplesmente ignoraria. O ato de classificar o mundo em “gosto” e “não gosto” gradualmente a leva a desvendar padrões ocultos na cidade e, por extensão, na natureza humana.
A trama se aprofunda quando Adèle começa a perceber que suas listas, inicialmente vistas como um diário pessoal, têm o poder de revelar uma interligação sutil entre a vida de estranhos. Suas observações sobre o cheiro de um café específico, o timbre de uma voz no metrô ou a cor de uma janela, acabam por desvendar as teias invisíveis que unem existências distintas. O filme explora como a subjetividade, essa lente intransferível que cada um de nós possui, não apenas molda nossa própria realidade, mas também tem a capacidade de nos conectar a uma verdade coletiva, ainda que fragmentada. É uma meditação sobre a forma como nossas escolhas e repulsas mais triviais delineiam não só quem somos, mas também a maneira como habitamos e compreendemos o universo ao nosso redor.
Jeunet emprega sua estética característica, misturando o realismo fantástico com um toque de melancolia. A direção de arte é impecável, com cenários que parecem saídos de uma ilustração detalhada, cada objeto cuidadosamente posicionado para evocar uma sensação. As performances são contidas, mas expressivas, com Adèle transmitindo a paixão silenciosa por sua metodologia sem recorrer a grandes arroubos emocionais. O filme, ao invés de buscar grandes arcos dramáticos, prioriza a acumulação de pequenas epifanias, evidenciando que a compreensão mais profunda do eu e do outro pode surgir da observação paciente e da valorização das minúcias que compõem o cotidiano.
A obra não procura oferecer conclusões definitivas sobre a condição humana, mas sim questionar a profundidade da percepção individual. Ela postula que a realidade é, em grande parte, uma construção pessoal, um emaranhado de gostos e desgostos que formam a espinha dorsal da nossa experiência. Essa premissa, embora simples na superfície, desdobra-se em uma análise intrincada sobre a identidade e a forma como a forjamos a partir de nossas preferências mais íntimas. ‘Things I Like, Things I Don’t Like’ é um exercício cinematográfico que celebra a idiossincrasia e a capacidade humana de encontrar significado nos recantos menos óbvios da existência.




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