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Filme: "Kiss Me, Stupid" (1964), Billy Wilder

Filme: “Kiss Me, Stupid” (1964), Billy Wilder

Em Kiss Me, Stupid, Billy Wilder satiriza a moralidade americana através de um compositor ciumento, um cantor famoso e uma garçonete contratada para um plano hilário sobre tentação e aparências.


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Em “Kiss Me, Stupid”, Billy Wilder ataca a moralidade da pequena cidade americana com a força de um furacão de comédia. Orville Spooner, um compositor obcecado por ciúmes e casado com a igualmente desconfiada Zelda, vive numa aridez suburbana onde a música é tão insossa quanto os valores. A chegada inesperada de Dino, um cantor famoso com uma libido aparentemente insaciável, à pacata Desert Gulch, Nevada, serve como catalisador para uma espiral de enganos e absurdos. Orville e seu parceiro, Barney Millsap, veem em Dino a chance de alavancar suas carreiras musicais, mas para isso precisam mantê-lo “entretido” longe dos olhos (e ouvidos) de suas esposas. O plano, claro, é tão tortuoso quanto as estradas poeirentas do deserto: eles inventam que Zelda é sua irmã, e contratam Polly, uma garçonete de bar com uma reputação (merecida ou não) duvidosa, para fingir ser a esposa de Orville.

O que se segue é um estudo hilário, e talvez desconcertante, sobre a natureza da tentação, o peso das aparências e a fragilidade do matrimônio. Wilder, mestre na arte de expor as hipocrisias da sociedade, não poupa ninguém. Dino, interpretado por Dean Martin com uma autoconsciência deliciosamente cínica, personifica o hedonismo sem remorso, enquanto Orville, com seu moralismo frágil, se torna o arquétipo do homem comum consumido pelo medo da traição. Polly, por sua vez, injeta uma dose de pragmatismo e até mesmo de bondade genuína em meio ao caos.

A comédia, no entanto, não é isenta de camadas mais profundas. A obsessão de Orville com a fidelidade beira o patológico, revelando uma insegurança arraigada que o impede de apreciar a verdadeira conexão com Zelda. A dinâmica entre os personagens expõe a superficialidade das relações humanas, onde a imagem pública frequentemente sobrepõe a realidade dos sentimentos. Há aqui uma crítica sutil ao conformismo da classe média americana, aprisionada em rotinas previsíveis e atormentada pelo fantasma do escândalo. Wilder, com sua habitual perspicácia, usa a comédia para questionar se a busca incessante pela “felicidade” não acaba, paradoxalmente, nos afastando dela. O filme, de certa forma, ecoa a ideia de Nietzsche sobre a máscara: a busca pela moralidade, por vezes, não passa de uma forma de esconder as nossas próprias pulsões. A questão, então, é se essa máscara nos protege ou nos sufoca.


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