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Filme: "November" (2017), Rainer Sarnet

Filme: “November” (2017), Rainer Sarnet

November é um conto folclórico sobre camponeses que fazem pactos com o Diabo por sobrevivência e uma jovem que usa a mesma magia por um amor não correspondido.


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Numa paisagem estoniana do século XIX, coberta por uma névoa perpétua e mergulhada na lama de um outono sem fim, a sobrevivência é uma transação diária com o profano. Rainer Sarnet filma este mundo em um preto e branco de alto contraste, onde a brancura da neve e dos espíritos corta a escuridão da terra e da miséria. Aqui, camponeses famintos não se limitam a rezar; eles constroem ‘kratts’, criaturas grotescas feitas de ossos, ferramentas agrícolas e objetos encontrados, que ganham vida através de um pacto com o Diabo para roubar dos vizinhos e do barão alemão que os explora. A magia não é um evento espetacular, mas uma ferramenta utilitária, tão comum quanto um arado, e a alma é apenas mais uma moeda de troca num mercado de necessidades urgentes.

É neste cenário que a jovem Liina se move, com o coração fixo em Hans, um rapaz da aldeia. O afeto dela é cru, uma força da natureza tão implacável quanto o inverno que se aproxima. Contudo, Hans está encantado pela beleza etérea da filha do barão, uma figura de um mundo diferente, limpo e inalcançável. Para conquistar o seu amor, Liina recorre aos mesmos poderes obscuros que os seus vizinhos usam para encher as suas despensas, disposta a qualquer feitiçaria e a barganhar com qualquer entidade que lhe possa dar o que deseja. A sua busca não é uma jornada romântica, mas um ato de desespero que espelha a luta de toda a comunidade pela existência, onde o amor e a fome se tornam impulsos indistinguíveis.

A força de ‘November’ reside na sua completa imersão numa lógica de mundo pré-moderna. O que se manifesta é uma forma de animismo prático, onde não há distinção clara entre o vivo e o inanimado, o sagrado e o profano. A Peste pode assumir a forma de uma cabra ou de uma donzela e ser enganada para se afogar num rio, os mortos regressam para jantar com as suas famílias e a Morte em pessoa pode ser ludibriada com um par de calças. Sarnet não julga nem exotiza estas crenças; ele as apresenta como a mecânica funcional de um universo coeso. A fotografia, assinada por Mart Taniel, é fundamental para esta construção, transformando cada quadro numa pintura barroca em movimento, onde o grotesco e o sublime coexistem de forma natural e, por vezes, com um humor profundamente sombrio.

O filme funciona como um estudo antropológico ficcional sobre a alma humana sob pressão extrema. Os habitantes desta aldeia não são bons ou maus; são pragmáticos ao ponto da crueldade. Eles vendem as suas almas por leite, roubam uns dos outros sem hesitação e enganam a morte, mas também partilham o pouco que têm com os seus antepassados e anseiam por afeto. A narrativa desvia-se de uma estrutura convencional para apresentar uma série de vinhetas que, juntas, formam o retrato de um ecossistema social e espiritual. É um lugar onde a chegada do Cristianismo é apenas mais uma superstição a ser absorvida e adaptada, com os santos de madeira a serem usados de formas muito pouco ortodoxas. ‘November’ é um conto folclórico visceral, uma comédia macabra e um drama sobre o amor não correspondido, tudo ao mesmo tempo, compondo uma experiência cinematográfica singular sobre o que as pessoas estão dispostas a fazer quando a alma vale menos do que a próxima refeição.


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