‘Out 1, Noli Me Tangere – Episodes 7 & 8’, do mestre Jacques Rivette, prossegue com sua exploração labiríntica de conexões obscuras e conspirações sutis no coração da Paris pós-Maio de 68. A busca incessante de Frédérique por uma sociedade secreta, supostamente inspirada em ‘História dos Treze’ de Balzac, cruza-se cada vez mais com as tentativas hesitantes de Colin de decifrar as mensagens enigmáticas que recebe de um misterioso interlocutor surdo-mudo. Rivette tece uma narrativa onde a paranoia e a busca pela verdade se confundem, onde a realidade se fragmenta em múltiplas interpretações possíveis.
Nesses dois episódios, a densidade da trama se adensa, com novos personagens entrando em cena e relações complexas se revelando gradualmente. A figura de Thomas, um intelectual que parece deter informações cruciais, emerge como um ponto de convergência entre os dois protagonistas. As conversas longas e sinuosas, marca registrada de Rivette, ganham contornos ainda mais significativos, revelando nuances de uma época marcada por idealismos desfeitos e desilusões persistentes. A atmosfera de mistério se intensifica, impulsionada por uma mise-en-scène que privilegia a ambiguidade e a sugestão.
A aparente dispersão narrativa, característica do estilo de Rivette, desafia o espectador a montar o quebra-cabeça da trama, a desvendar as camadas de significado que se escondem sob a superfície. O filme não oferece soluções fáceis, mas propõe uma reflexão profunda sobre a natureza da verdade, a fragilidade das relações humanas e a complexidade da condição existencial. A obra se aproxima de uma investigação cinematográfica do conceito de devir, em que a identidade e o sentido são fluidos e constantemente transformados pelas interações e pelas circunstâncias.
‘Out 1’ não é um filme para quem busca narrativas lineares ou resoluções simplistas. É uma experiência imersiva que exige paciência, atenção e uma abertura para o experimentalismo formal. A recompensa, no entanto, é a oportunidade de testemunhar a genialidade de um cineasta que desafiou as convenções narrativas e criou uma obra singular, capaz de ressoar com força nos dias de hoje. A direção de Rivette, com seu ritmo peculiar e sua predileção por longos planos-sequência, enfatiza a importância do processo de descoberta, da jornada em si, em detrimento de um objetivo final predefinido.
O filme permanece relevante por sua capacidade de capturar a essência de uma época de transformação e incerteza, refletindo as angústias e as aspirações de uma geração que buscava novos caminhos em um mundo em constante mudança. A busca por sentido, a necessidade de conexão e a luta contra a opressão são temas que continuam a ressoar com força, tornando ‘Out 1’ uma obra atemporal e essencial para qualquer cinéfilo que se preze. A longa duração do filme, longe de ser um obstáculo, torna-se um convite à imersão, um mergulho profundo em um universo rico em detalhes e nuances.




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