‘Vox Lux’ é uma ópera pop moderna que acompanha a ascensão meteórica e as subsequentes espirais de Celeste, interpretada inicialmente por Raffey Cassidy e, na fase adulta, por Natalie Portman. O filme não se limita a traçar uma biografia musical, mas busca dissecar a relação simbiótica e, por vezes, predatória, entre trauma, espetáculo e a construção da identidade na era da informação.
A história começa em 1999, com um ato de violência brutal em uma escola que transforma a jovem Celeste em um símbolo, uma sobrevivente. A música surge quase como um mecanismo de defesa, uma forma de processar a dor e canalizar a atenção para algo criativo. Willem Dafoe narra a história, conferindo um tom quase documental e distanciado, como se estivéssemos observando um fenômeno antropológico em vez de uma narrativa ficcional convencional.
Anos depois, Celeste é uma estrela pop global, mas a fama e o sucesso não atenuaram as cicatrizes do passado. Longe de suavizar a imagem da cantora, o filme expõe suas fragilidades, seus excessos e a pressão implacável de uma indústria que se alimenta da vulnerabilidade. A relação complexa com sua irmã Eleanor, interpretada por Stacy Martin, que funciona como sua principal compositora e confidente, adiciona camadas de ambiguidade e tensão emocional.
Corbet não busca julgamentos morais fáceis. Celeste não é uma figura redentora, nem tampouco uma caricatura da celebridade decadente. Ela é uma personagem complexa, moldada por eventos traumáticos e pelas forças implacáveis do capitalismo tardio. O filme, portanto, funciona como uma reflexão sobre a maneira como a sociedade lida com o trauma, transformando-o em mercadoria e consumindo-o como entretenimento. A ascensão de Celeste ecoa uma lógica foucaultiana do poder, onde o indivíduo internaliza a vigilância e se torna, ele mesmo, o agente de sua própria disciplina. A música, neste contexto, serve tanto como ferramenta de expressão quanto como instrumento de controle.
A trilha sonora de Scott Walker, com canções originais de Sia, desempenha um papel crucial, elevando o filme para além do drama biográfico convencional. As sequências musicais são coreografadas com precisão, capturando a energia frenética dos shows e a fragilidade da artista por trás da persona. ‘Vox Lux’ não oferece soluções fáceis, mas provoca uma reflexão incômoda sobre a nossa cultura, a espetacularização da violência e o preço da fama em um mundo obcecado pela imagem e pelo consumo. O final, impactante, deixa no ar uma sensação de melancolia e um questionamento sobre o legado que construímos.




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