Stella Barey fez as contas. Segundo ela, um fã que encontra uma criadora de conteúdo adulto num vídeo comportado do TikTok ou do Instagram precisa, em média, de 55 cliques até chegar ao trabalho pago dessa mulher. Cada clique é um desvio imposto por plataformas que lucram com a atenção que essas criadoras atraem e preferem não saber de onde ela vem. Barey é uma das fundadoras do Hidden, aplicativo apelidado de “TikTok do pornô” e criado justamente para encurtar esse caminho. Chama atenção, sobretudo, a autoria. O app pertence a mulheres que trabalham na indústria e conhecem, por experiência própria, o despejo que pretendem evitar.
A tese por trás do projeto tem a amargura de quem já viu o filme muitas vezes. Profissionais do sexo ajudam a erguer uma plataforma e trazem a ela público, receita e relevância. Um dia, acordam do lado de fora, com a conta suspensa e o trabalho de anos sem endereço. A história recente da internet oferece exemplos suficientes para que a frase ganhe peso de diagnóstico.
Em março de 2018, logo depois de o Congresso americano aprovar a lei conhecida como FOSTA, criada para combater o tráfico sexual online, o Craigslist tirou do ar sua seção de anúncios pessoais nos Estados Unidos. A empresa alegou não poder correr o risco de responder judicialmente pelo que os usuários publicavam. Em dezembro do mesmo ano, o Tumblr, que por anos tolerou conteúdo adulto e reuniu comunidades inteiras em torno dele, anunciou a proibição de todo material do gênero. Em agosto de 2021, foi a vez do OnlyFans, plataforma que virou sinônimo de conteúdo adulto, anunciar que baniria material sexualmente explícito a partir de outubro. O recuo veio seis dias depois, após a revolta das criadoras e novas garantias dos parceiros bancários.
O episódio do OnlyFans revela quem realmente dá as cartas. Tim Stokely, fundador da empresa, explicou ao Financial Times que a decisão vinha dos bancos. Citou nominalmente o JPMorgan Chase, o Bank of New York Mellon e o britânico Metro Bank, que vinham dificultando os pagamentos às criadoras. A plataforma funciona, portanto, como um senhorio que também paga aluguel. Acima dela estão bancos e bandeiras de cartão que nunca disputaram eleição, raramente explicam seus critérios em público e podem decidir o que milhões de pessoas têm permissão para vender. Em julho de 2025, o mesmo mecanismo alcançou os games. Uma campanha contra um jogo que simulava estupro e incesto levou as processadoras de pagamento a pressionar a Steam e o itch.io. A varredura do itch.io escondeu seu catálogo adulto inteiro, incluindo títulos sem qualquer conteúdo sexual. Barey resume o ciclo dizendo que profissionais do sexo acabam empurradas para fora sempre que as processadoras reagem.
Nas redes generalistas, a situação tem algo de armadilha. Criadoras adultas precisam do Instagram e do TikTok para existir, porque é ali que o público se forma, e essas mesmas plataformas podem bani-las a qualquer momento. Ari Kytsya, sócia de Barey, diz correr esse risco todos os dias, embora mantenha perfis comportados. A criadora Reilly Jasmine achava esgotante manter oito plataformas diferentes enquanto era banida de uma após a outra, sob regras que mudam o tempo todo. Judy, criadora negra e queer, relata uma camada extra de escrutínio, que a obriga a trabalhar mais para alcançar a mesma visibilidade. A precariedade, como quase sempre, não se distribui por igual.
Daí a tentação de comprar o imóvel. As fundadoras do Hidden prometem regras escritas por quem conhece o ofício por dentro. A promessa soa familiar, porque o próprio OnlyFans se apresentava como uma plataforma feita para dar autonomia às criadoras. Ser dona da casa protege contra o despejo só até certo ponto quando o terreno pertence a outro. Um aplicativo que vende pornografia em poucos cliques depende de alguém que processe esses pagamentos, e nenhuma boa intenção das fundadoras elimina essa dependência. A decisão de evitar a verificação de identidade invasiva, admirável do ponto de vista da privacidade, também pode virar um flanco num momento em que vários governos passaram a exigir comprovação de idade em sites adultos. A propriedade muda quem decide dentro da plataforma. Fora dela, as mesmas forças continuam de plantão.
Nada disso torna menor o problema que bancos, legisladores e plataformas dizem combater. Material de abuso infantil, conteúdo sem consentimento e tráfico existem e exigem resposta séria. O Tumblr, aliás, endureceu suas regras semanas depois de ver o aplicativo retirado da App Store por causa de imagens de abuso que escaparam aos seus filtros. A questão é quem paga a conta dessa resposta. Quase sempre ela recai sobre criadoras e criadores adultos que nada tinham a ver com o crime e que perdem, sem aviso, renda, público e arquivo. O Hidden talvez não resolva esse impasse. Barey, ao menos, formula a pergunta certa quando quer saber em que momento as profissionais do sexo vão parar de construir casas para os outros e começar a erguer as próprias fundações.




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