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O fetiche dá sentido à existência em “Mr. Leather”

Documentário de Daniel Nolasco explora a segunda edição do concurso Mr. Leather Brasil, revelando a complexa interseção entre identidade, fetichismo e pertencimento na comunidade gay


Avatar de Hernandes Matias Junior

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Imagine um mundo onde a pele não é apenas proteção, mas proclamação; onde o couro não cobre o corpo, mas o revela em camadas de significado que se desdobram como um texto vivo. Esse é o universo que Daniel Nolasco nos apresenta em Mr. Leather, um documentário que acompanha a segunda edição do concurso Mr. Leather Brasil, realizado em 2018, em São Paulo. Aqui, a câmera não apenas registra: ela performa, seduz, questiona. O filme é uma incursão filosófica disfarçada de celebração fetichista, um estudo sobre como os homens dessa comunidade gay brasileira tecem suas identidades entre o desejo, a teatralidade e o pertencimento.

A obra começa com um gesto audacioso: em vez de nos entregar um relato histórico tradicional, com imagens de arquivo ou vozes em off explicativas, Nolasco encena um prólogo que é puro artifício. Um homem, que a narração nos diz não ser ator, encara a câmera. Ele lambe os lábios, exibe um piercing na língua, e o olhar que nos lança é ao mesmo tempo convite e provocação. Esse tableau, quase uma pintura viva, recria as origens do concurso, mas não busca autenticidade documental. Pelo contrário, sublinha a encenação como essência dessa subcultura. O couro, aqui, já se anuncia como mais que vestimenta: é uma máscara que desmascara, um símbolo que os participantes vestem para se afirmarem diante de um mundo que muitas vezes os silencia.

O cerne do filme é a competição em si, mas Nolasco não se limita a narrar o evento. Ele nos apresenta quatro concorrentes, cada um carregando uma história que transforma o título de Mr. Leather em algo maior que uma faixa de couro sobre o peito. São homens que falam de suas vidas, de como o fetiche não é apenas prazer, mas um modo de existir. Um deles menciona o código S.S.C. – Sane, Safe & Consensual –, revelando uma ética que governa esse universo, uma preocupação com o outro que humaniza o que poderia ser visto como excesso. Outro reflete sobre a homossexualidade como um padrão que imita normas externas, sugerindo que abraçar o couro é romper com mais um confinamento, uma saída de outro armário invisível. Essas vozes, captadas em entrevistas ou momentos espontâneos, como uma conversa num carro, mostram que o couro é uma linguagem, um grito silencioso de autoafirmação.

A câmera de Nolasco, guiada pela fotografia de Larry Machado, faz mais que observar: ela toca. Há cenas em que o foco se detém no brilho de uma jaqueta, na textura de uma bota, no modo como a luz dança sobre a superfície polida do couro. É como se o filme quisesse que sentíssemos o peso, o cheiro, a presença física desse material que os competidores transformam em arte. Essa sensualidade visual não é gratuita; ela nos puxa para dentro do mundo que retrata, transformando o espectador em cúmplice de uma experiência que é tanto estética quanto existencial. A trilha sonora, ora pulsante, ora introspectiva, amplifica essa imersão, costurando as imagens com uma energia que oscila entre a festa e a meditação.

Mas o que torna Mr. Leather uma obra digna de um olhar filosófico é sua capacidade de revelar a comunidade por trás do espetáculo. Longe de reduzir esses homens a caricaturas de fetiche, Nolasco os mostra em jantares, festas, instantes de camaradagem. Há uma solidariedade palpável, um senso de pertencimento que floresce apesar de um contexto social que frequentemente os marginaliza. O filme traça, ainda que brevemente, a história dessa subcultura no Brasil, um percurso marcado por desafios políticos e culturais, mas também por uma vitalidade que se recusa a apagar. É nesse ponto que podemos trazer Foucault à conversa, não como um clichê acadêmico, mas como uma lente sutil: o couro, nesse contexto, é uma prática de si, uma tecnologia do corpo pela qual esses homens negociam poder, prazer e identidade em um espaço que eles mesmos constroem.

A leveza, porém, é uma das forças do filme, e também seu limite. A competição final, com sua explosão de alegria e tensão, é o ápice de uma narrativa que nos faz torcer por esses personagens que, a essa altura, já conhecemos como amigos distantes. O anúncio do vencedor é um momento de exaltação coletiva, uma catarse que une competidores e público num abraço simbólico. No entanto, há questões que o filme apenas roça. A iconografia do couro, suas implicações de poder e gênero, a relação com o BDSM como prática política – tudo isso aparece, mas não se aprofunda. Talvez seja uma escolha deliberada: Nolasco parece priorizar a celebração à dissecação, o prazer à análise densa. Para um estudante de filosofia, isso pode frustrar; para um espectador em busca de conexão, é um alívio.

O que fica, ao fim, é uma sensação de proximidade com um mundo que, para muitos, permanece distante. Mr. Leather não tenta explicar ou justificar; ele mostra, com respeito e um toque de humor, que por trás das fantasias há pessoas reais, com anseios, dúvidas, afetos. O couro, nesse universo, não é barreira, mas ponte – uma forma de tocar o outro, de se fazer visível. Nolasco acerta ao nos deixar com a impressão de que essa comunidade, em sua teatralidade assumida, é um espelho invertido da nossa própria busca por sentido. Não há lições explícitas aqui, apenas a constatação de que a existência, como o couro, é algo que se molda, se veste, se vive – e, às vezes, se exibe com orgulho. Para quem gosta de pensar o humano além das bordas do comum, esse filme é um palco onde o corpo fala mais alto que as palavras.


“Mr. Leather”, Daniel Nolasco

MUBI

Avaliação: 3 de 5.


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