Cultivando arte e cultura insurgentes


Sexo é invasão e destruição

Entre notificações silenciadas e o tilintar discreto de um “visto por último” repousando impotente sobre nossas vontades, as relações humanas se transformaram em transações limpas: pulsos embalados em protocolos de consentimento prévio, corações higienizados de quaisquer respingos de imperfeição. Há quem celebre esse cuidado todo como avanço civilizatório, mas é fácil confundir assepsia com anestesia:…


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Entre notificações silenciadas e o tilintar discreto de um “visto por último” repousando impotente sobre nossas vontades, as relações humanas se transformaram em transações limpas: pulsos embalados em protocolos de consentimento prévio, corações higienizados de quaisquer respingos de imperfeição. Há quem celebre esse cuidado todo como avanço civilizatório, mas é fácil confundir assepsia com anestesia: as pessoas perderam o fôlego de se machucar, e sobretudo perderam o fôlego de se entregar.

No vaivém dos swipe rights e dos passes de fronteira emotivos, criamos um sistema de etapas calibradas — conversa inicial, checagem de limites, sinal verde para emoções, acordo verbal para vontades carnais — até que qualquer fagulha espontânea seja extinta por cláusulas minuciosas. Pois em um mundo em que tudo se regulamenta, até o esfregar das peles precisa vir com manual de instruções. Mas, no íntimo, sabemos que o sexo não se reduz à pastelaria de práticas autorizadas: ele é invasão.

Invasão, sim. Porque envolver-se no corpo do outro é furar barreiras, transpor cercas íntimas, retirar fragmentos de si próprio para deixar no tecido alheio — e por vezes receber em troca leituras dolorosas do próprio reflexo. É a audácia de rasgar protocolos e sentir, por um instante, a pele latejar de si mesma. Sem esse gesto de ruptura, ficamos estagnados em câmaras frias de afetividade: discursos polidos, elogios pré-aprovados, demonstrações de carinho certeiras como flechas teleguiadas. Tudo em nome de evitar “toxidez”, como se a ferida emocional pudesse ser abolida pelo protocolo.

Mas é nas frestas da transgressão que se inscreve a história: aquele soluço que escapa quando algo dói; aquele arrepio que anuncia entrega total; aquele pedaço de pele que arde quando lembramos que pertencemos a nós mesmos e ao outro ao mesmo tempo. É destruição produtiva — fissura que deixa entrar luz, cicatriz que nos remete ao sagrado do desejo. Sem a urgência de invadir, não há registro de vida.

Talvez, no futuro, inventemos seguros contra melancolias pós-afeto, franquias de ressentimento e auditorias sentimentais. Mas será sempre insuficiente, porque a essência do encontro está no risco, na possibilidade de sair dilacerado, no pressentimento de que não haverá devolução idêntica: somos devorados e devoramos, e é desse banquete de pedaços que brota o poema.


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