Em Gerontofilia, Bruce LaBruce desloca a câmera do underground punk para um asilo de idosos. O filme narra a história de Lake, um jovem lifeguard que descobre, após um incidente no trabalho, uma atração inesperada por homens idosos. Essa premissa, que poderia ser reduzida a um choque fácil, é tratada com uma ironia delicada, quase melancólica, que questiona não apenas tabus sexuais, mas a própria noção de valor atribuído aos corpos envelhecidos.
A relação entre Lake e o octogenário Melvyn Peabody não é apresentada como um devaneio fetichista, mas como um encontro de ausências: o jovem busca algo além da rebeldia vazia de sua namorada Desiree, que coleciona frases de feministas radicais como se fossem figurinhas, enquanto Peabody, medicado até a apatia, revive fragmentos de si ao se reconhecer desejado. LaBruce constrói cenas que borram a linha entre cuidado e erotismo — o banho dado por Lake, por exemplo, é filmado com uma crueza que evita o voyeurismo, focando no toque como linguagem. Não há êxtase, apenas a quietude de dois corpos que, em outras circunstâncias, seriam invisíveis: um por ser jovem demais para ser levado a sério, outro por ser velho demais para ser visto.
O filme falha, porém, ao tentar equilibrar seu tom. Enquanto a primeira metade mergulha em silêncios significativos, a viagem rodoviária que ocupa o clímax parece desconectada, como se LaBruce hesitasse entre o drama íntimo e a comédia absurdista. A escolha por diálogos às vezes didáticos — como o discurso de Desiree sobre fluidez sexual — quebra a sutileza, expondo uma necessidade de explicar o que já estava claro nas entrelinhas. Apesar disso, há uma cena que salva a narrativa: quando Peabody, em um motel, dança sozinho ao som de jazz, seu corpo frágil ganha uma dignidade que transcende qualquer discurso. É nesse momento que o filme alcança seu ápice, sugerindo que a beleza não é uma questão de idade, mas de presença.
Gerontofilia parece ecoar a ideia de Georges Bataille sobre o erótico como ruptura da ordem utilitarista. Lake e Peabody não se relacionam por prazer convencional ou por dever moral, mas porque suas existências, marginalizadas à força, encontram no desejo um ato de insubordinação. O asilo, espaço de controle e medicalização, torna-se palco para uma transgressão silenciosa. LaBruce, conhecido por seus excessos, aqui opta pela contenção, talvez em uma busca de atingir o mainstream, e é justamente essa moderação que amplia o incômodo: ao normalizar o “anormal”, ele expõe o quanto nossas noções de afeto ainda são ditadas por cronômetros biológicos.
Apesar das falhas técnicas — atuações hesitantes, ritmo irregular —, o filme persiste na memória como um paradoxo. É uma obra menos sobre envelhecimento do que sobre a urgência de se reconhecer em outro, mesmo que esse outro habite um corpo que a sociedade insiste em descartar. LaBruce não glorifica a gerontofilia, mas a usa para refletir nossa própria dificuldade em aceitar que o desejo, como o tempo, não obedece mapas.
“Gerontofilia”, Bruce LaBruce
Reserva Imovision




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