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“O Desabamento” é o livro em que Édouard Louis se permite não entender, não julgar e não resolver nada

O mais recente livro do autor francês apresenta a dor como matéria de observação, construindo um retrato desolador de distâncias familiares

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O mais recente livro do autor francês apresenta a dor como matéria de observação, construindo um retrato desolador de distâncias familiares



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O novo livro de Édouard Louis é uma autópsia afetiva feita sem anestesia. Depois de esgotar pai e mãe em obras anteriores, agora é o irmão quem ocupa o centro da cena, ou do necrotério. O Desabamento não dramatiza o luto, mas o coloca em suspensão, sob exame. Um homem de 38 anos morre sozinho, cercado por destroços físicos e simbólicos, e o irmão mais novo, que por uma década o manteve fora da vida, se lança numa reconstrução impessoal dos fatos.

Louis organiza seu livro como se estivesse diante de um quebra-cabeça cujo resultado final não forma imagem alguma. Recolhe memórias fragmentadas, entrevistas com ex-companheiras do irmão, leituras de Freud e Binswanger, e elabora uma narrativa que oscila entre o ensaio íntimo e o prontuário clínico. Mas mesmo com toda essa inteligência analítica, o autor não finge controle. Em vez de aplicar mais uma vez o molde da sociologia para explicar o fracasso do irmão, parece admitir que a teoria já não basta. Como ele mesmo escreve, a vida do irmão não cabe numa equação de pobreza, masculinidade tóxica e alcoolismo. Ainda que esses elementos estejam ali, servindo de pano de fundo ou de pressão, não explicam o acontecimento.

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Ao se ver diante da morte do irmão, Louis escreve: “não senti tristeza, nem alegria”. Essa frase inicial já indica a recusa da catarse. O livro não quer purgar sentimentos. O que se pretende é pensar a falência, e não apenas como evento individual. O irmão era considerado o “fracassado” da família, mas Louis não escreve para fazer justiça a ele. Escreve para verificar os limites entre destino e escolha, e talvez para aceitar que a queda do outro não redime ninguém.

O Desabamento tem potência justamente porque não busca nobreza nas ruínas. O irmão é descrito sem romantismo: racista, homofóbico, violento, incapaz de sustentar vínculos. Ao mesmo tempo, Louis se pergunta como alguém pode querer coisas tão básicas — uma casa, um emprego, uma família — e ainda assim terminar como um corpo esquecido no chão da própria sala. Ele tenta entender não só o homem, mas a engrenagem que o engoliu. Ao fazer isso, encosta no conceito filosófico de pathos, não como apelo emocional, mas como lugar de experiência extrema da dor. A vida do irmão é uma exaustão concreta, repetitiva, entranhada em cada gesto. Louis olha para esse percurso como quem encara uma doença incurável, sem desespero, mas também sem esperança.

Há algo de clínico na forma como o autor estrutura o livro. São fatos, números, testemunhos, tentativas. Há também o reconhecimento de que não se conhece verdadeiramente alguém apenas porque se compartilhou a infância. O irmão aparece mais como presença dissonante do que como figura familiar. A distância entre eles é o tema recorrente, quase um personagem. “Nossa vida era o intervalo entre as nossas vidas”, ele escreve. E nesse intervalo se instala a culpa por não ter feito mais, ou por ter feito menos. Não é um acerto de contas, é uma constatação: o laço de sangue não basta para impedir o colapso.

A linguagem de Louis neste livro é mais contida que em obras anteriores. Em vez da fúria ou da denúncia, há um tom mais sóbrio, quase exausto. Não por falta de paixão, mas por excesso de realidade. A escrita avança aos solavancos, sem ornamentos, como se o próprio autor quisesse se proteger de um envolvimento maior. Talvez por isso o livro seja mais forte. Ao recusar o conforto da explicação, Louis nos dá algo mais raro: a honestidade de quem encara uma dor sem saber muito bem o que fazer com ela.

O Desabamento não é um livro para compreender o outro. É um livro sobre o fracasso de toda tentativa de compreensão diante de uma vida que não se encaixou. Se há crítica possível, é que a própria precisão de Louis, sua necessidade de organizar, diagnosticar, classificar, por vezes reduz a complexidade do vivido a uma moldura um pouco apertada. Há momentos em que o texto ameaça sufocar sob seu próprio método. Ainda assim, a frieza do tom e a nitidez da construção compõem uma obra impactante que reconhece os limites do que se pode saber sobre quem já não está aqui.

Sem concessões, sem lamento, sem reconciliações, Edouard Louis encerra aqui um ciclo literário que começou com a rejeição e termina com um silêncio. O irmão não tem nome, quase não tem rosto, mas tem peso. Um peso que Louis carrega com a elegância de quem sabe que, por mais que se escreva, certas quedas não podem ser evitadas. Só narradas.


“O Desabamento”, Édouard Louis

Todavia

Avaliação: 4 de 5.

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