# #
#
A tensão superficial do tempo, de Cristovão Tezza, não é uma narrativa linear, mas um mergulho visceral na fragilidade da memória e na fluidez do tempo, um rio caudaloso que arrasta o protagonista, um escritor anônimo em crise criativa e existencial, para um turbilhão de lembranças e obsessões. A superfície tranquila da sua vida burguesa – o casamento aparentemente sólido, a casa aconchegante, o sucesso literário passado – racha, revelando um abismo de insegurança e um passado assombrado que se recusa a permanecer enterrado.
A trama se desdobra como um caleidoscópio, alternando entre o presente atormentado do narrador e fragmentos de um passado nebuloso, povoado por figuras enigmáticas: um pai distante e ausente, cuja sombra alonga-se sobre a sua vida adulta; uma mãe enigmática, cujo silêncio carrega um peso insondável; e uma série de amantes fugazes, que representam diferentes facetas da sua incapacidade de se conectar verdadeiramente. Cada encontro, cada lembrança, é um nó na teia complexa da sua identidade, um fio solto que ameaça desfazer todo o tecido da sua vida presente.
A escrita de Tezza é um espelho da própria fragmentação do protagonista: frases curtas e fragmentadas, que refletem a natureza elusiva da memória e a desordem dos pensamentos, se intercalam com momentos de lírica intensa, revelando uma beleza sombria e perturbadora. A linguagem, carregada de metáforas e imagens oníricas, cria uma atmosfera densa e claustrofóbica, que prende o leitor na angústia existencial do narrador.
Mas ‘A tensão superficial do tempo’ não se limita a ser um estudo da melancolia. É também uma incursão nas zonas cinzentas da moralidade, onde o desejo, a culpa e a redenção se entrelaçam numa dança perturbadoramente fascinante. O protagonista, em sua busca incessante pelo significado, confronta-se com a finitude da existência e a impossibilidade de escapar do passado. A narrativa se questiona: é possível reconstruir a identidade a partir dos escombros da memória? Podemos realmente escapar da tensão superficial do tempo, da sua força implacável que nos molda e nos destrói? A resposta, obscura e inquietante, permanece em suspenso, desafiando o leitor a confrontar-se com suas próprias fragilidades e inseguranças.
“A tensão superficial do tempo” está à venda no site da Todavia.








Deixe uma resposta