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A música vive hoje uma era de riscos calculados

Sevdaliza lança clipe de “Messiah” com o intuito de ser provocador, mas que só revela a covardia da cantora

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A arte contemporânea se tornou exímia em encenar transgressões. O novo clipe de Messiah, da cantora persa Sevdaliza, é um exemplo quase didático desse teatro da provocação. A faixa, que integra o álbum ainda não lançado intitulado Heroina, traz imagens cuidadosamente orquestradas para sugerir ousadia: Sevdaliza aparece dentro de uma banheira em forma de cruz, depois sentada no colo de uma figura que remete a Jesus durante uma releitura estética da Última Ceia. À primeira vista, o gesto parece corajoso. À segunda, percebe-se o quanto é só convenção.

Há algo de profundamente sintomático na escolha do alvo. Sevdaliza nasceu no Irã, país em que uma mulher pode ser espancada até a morte por não usar o véu corretamente. País em que a música, para mulheres, é um ato de desafio. País que ela mesma não pode mais pisar, sob risco real de represálias. Ainda assim, diante de todos os temas possíveis, ela decide mirar seu “desafio” ao cristianismo — justamente a religião dos países que a acolheram, que permitiram sua liberdade criativa, sua turnê, seu videoclipe.

A crítica ao cristianismo não é o problema. O problema é a ausência de crítica ao outro lado. O problema é que a ousadia virou simetria falsa. Blasfemar contra o cristianismo no Ocidente já é praticamente uma tradição pop. De Madonna a Lil Nas X, passando por Lady Gaga, todos já ocuparam esse espaço. É seguro, é aceito, é até celebrado. Enquanto isso, o islamismo, mesmo quando associado diretamente à repressão que exilou Sevdaliza, permanece intacto, inalcançável, protegido por um silêncio que não é respeito, mas temor.

A música vive uma era de riscos cuidadosamente editados. O artista de hoje é livre para parecer transgressor, desde que não transgrida demais. Pode-se falar em fé, desde que seja para subverter a fé tolerante. Pode-se usar o sagrado, desde que seja o sagrado inofensivo. Pode-se provocar, desde que o provocador saiba onde está pisando.

Messiah, enquanto videoclipe, é visualmente sofisticado, mas espiritualmente conformista. Ao contrário do que sugere, ele não desafia autoridade alguma. Ao contrário do que pretende, ele não abre discussão. Apenas confirma o padrão: atacar o que é permitido atacar. A única heresia que resta é a omissão.

Seria de fato provocador se Sevdaliza tivesse coragem de interpelar também o imaginário do islamismo. Não com ofensa, mas com o mesmo ímpeto artístico com que se apropria dos símbolos cristãos. Mas isso exigiria algo que a indústria, com suas curadorias e algoritmos, já não incentiva: autenticidade com risco real. E risco, hoje, só entra na fórmula quando já foi domesticado pelo marketing.

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A arte contemporânea se tornou exímia em encenar transgressões. O novo clipe de Messiah, da cantora persa Sevdaliza, é um exemplo quase didático desse teatro da provocação. A faixa, que integra o álbum ainda não lançado intitulado Heroina, traz imagens cuidadosamente orquestradas para sugerir ousadia: Sevdaliza aparece dentro de uma banheira em forma de cruz, depois sentada no colo de uma figura que remete a Jesus durante uma releitura estética da Última Ceia. À primeira vista, o gesto parece corajoso. À segunda, percebe-se o quanto é só convenção.

Há algo de profundamente sintomático na escolha do alvo. Sevdaliza nasceu no Irã, país em que uma mulher pode ser espancada até a morte por não usar o véu corretamente. País em que a música, para mulheres, é um ato de desafio. País que ela mesma não pode mais pisar, sob risco real de represálias. Ainda assim, diante de todos os temas possíveis, ela decide mirar seu “desafio” ao cristianismo — justamente a religião dos países que a acolheram, que permitiram sua liberdade criativa, sua turnê, seu videoclipe.

A crítica ao cristianismo não é o problema. O problema é a ausência de crítica ao outro lado. O problema é que a ousadia virou simetria falsa. Blasfemar contra o cristianismo no Ocidente já é praticamente uma tradição pop. De Madonna a Lil Nas X, passando por Lady Gaga, todos já ocuparam esse espaço. É seguro, é aceito, é até celebrado. Enquanto isso, o islamismo, mesmo quando associado diretamente à repressão que exilou Sevdaliza, permanece intacto, inalcançável, protegido por um silêncio que não é respeito, mas temor.

A música vive uma era de riscos cuidadosamente editados. O artista de hoje é livre para parecer transgressor, desde que não transgrida demais. Pode-se falar em fé, desde que seja para subverter a fé tolerante. Pode-se usar o sagrado, desde que seja o sagrado inofensivo. Pode-se provocar, desde que o provocador saiba onde está pisando.

Messiah, enquanto videoclipe, é visualmente sofisticado, mas espiritualmente conformista. Ao contrário do que sugere, ele não desafia autoridade alguma. Ao contrário do que pretende, ele não abre discussão. Apenas confirma o padrão: atacar o que é permitido atacar. A única heresia que resta é a omissão.

Seria de fato provocador se Sevdaliza tivesse coragem de interpelar também o imaginário do islamismo. Não com ofensa, mas com o mesmo ímpeto artístico com que se apropria dos símbolos cristãos. Mas isso exigiria algo que a indústria, com suas curadorias e algoritmos, já não incentiva: autenticidade com risco real. E risco, hoje, só entra na fórmula quando já foi domesticado pelo marketing.

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