Como se pode abandonar um lugar que vive dentro de si? É a pergunta que assombra Guy Maddin enquanto ele tenta, literalmente, filmar a sua fuga de Winnipeg, a capital sonâmbula e coberta de neve de Manitoba, no coração do Canadá. Nesta psicogeografia alucinada, que ele mesmo define como uma “docu-fantasia”, a realidade factual funde-se com um mito febril e pessoal. A cidade que emerge não é a de um mapa, mas a de um sonho recorrente, um lugar onde rios subterrâneos secretos correm sob as ruas, uma invasão nazi simulada se tornou um bizarro marco cívico e a população inteira parece presa num sonambulismo perpétuo, incapaz de acordar ou de partir.
Maddin entrelaça estas lendas urbanas com a sua própria mitologia familiar, chegando ao ponto de reencenar a sua infância com atores, incluindo a sua própria mãe interpretada por uma atriz icónica, numa réplica da sua antiga casa. Através de uma torrente hipnótica de imagens em preto e branco granulado, que evocam a era do cinema mudo com a sua montagem frenética e intertítulos fantasmagóricos, o filme funciona simultaneamente como uma carta de amor elegíaca e uma nota de suicídio exasperada para a sua cidade. É um ensaio onírico, sardónico e profundamente comovente sobre a arquitetura da memória, explorando a forma como os lugares nos moldam, nos assombram e, em última análise, se recusam a nos deixar partir.
“Minha Winnipeg” está disponível no MUBI.









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