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Filme: “O Poderoso Chefão: Parte II”, Francis Ford Coppola

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Francis Ford Coppola ousa desconstruir o seu próprio mito, dividindo a narrativa em duas correntes temporais que correm paralelas, informando-se e contradizendo-se mutuamente. De um lado, acompanhamos a ascensão de um jovem Vito Corleone, desde a sua fuga da Sicília até se tornar uma figura de poder e respeito nas ruas de Little Italy no início do século XX. Esta é uma história de origem banhada numa paleta sépia, uma crónica de comunidade, família e violência nascida da necessidade, onde a construção de um império parece quase um ato de proteção comunitária.

Em brutal contraste, testemunhamos o reinado do seu filho, Michael Corleone, nos finais da década de 1950. No auge do seu poder, a tentar legitimar os negócios da família em Nevada e em Cuba pré-revolucionária, Michael governa com uma gelada precisão que contrasta com o carisma caloroso do seu pai. A sua jornada não é de construção, mas de uma lenta e inexorável desintegração. Cada movimento para solidificar o poder – seja a lidar com a traição interna, a enfrentar um senado hostil ou a manipular o seu rival Hyman Roth – afasta-o mais da sua família e da sua própria humanidade.

O filme é menos uma sequela e mais uma tese sobre a natureza corrosiva do poder americano. Enquanto Vito constrói uma família para sustentar um império, Michael sacrifica a sua família para manter esse mesmo império. A estrutura dual não serve apenas para dar contexto, mas para criar uma elegia sombria, um diálogo entre o passado idealizado e um presente desolador. É um estudo de personagem de uma complexidade operática, que explora como o legado de um pai se torna o fardo de um filho, culminando não numa explosão de glória, mas no silêncio ensurdecedor do isolamento e no eco de uma porta a fechar-se sobre uma alma vazia.

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Francis Ford Coppola ousa desconstruir o seu próprio mito, dividindo a narrativa em duas correntes temporais que correm paralelas, informando-se e contradizendo-se mutuamente. De um lado, acompanhamos a ascensão de um jovem Vito Corleone, desde a sua fuga da Sicília até se tornar uma figura de poder e respeito nas ruas de Little Italy no início do século XX. Esta é uma história de origem banhada numa paleta sépia, uma crónica de comunidade, família e violência nascida da necessidade, onde a construção de um império parece quase um ato de proteção comunitária.

Em brutal contraste, testemunhamos o reinado do seu filho, Michael Corleone, nos finais da década de 1950. No auge do seu poder, a tentar legitimar os negócios da família em Nevada e em Cuba pré-revolucionária, Michael governa com uma gelada precisão que contrasta com o carisma caloroso do seu pai. A sua jornada não é de construção, mas de uma lenta e inexorável desintegração. Cada movimento para solidificar o poder – seja a lidar com a traição interna, a enfrentar um senado hostil ou a manipular o seu rival Hyman Roth – afasta-o mais da sua família e da sua própria humanidade.

O filme é menos uma sequela e mais uma tese sobre a natureza corrosiva do poder americano. Enquanto Vito constrói uma família para sustentar um império, Michael sacrifica a sua família para manter esse mesmo império. A estrutura dual não serve apenas para dar contexto, mas para criar uma elegia sombria, um diálogo entre o passado idealizado e um presente desolador. É um estudo de personagem de uma complexidade operática, que explora como o legado de um pai se torna o fardo de um filho, culminando não numa explosão de glória, mas no silêncio ensurdecedor do isolamento e no eco de uma porta a fechar-se sobre uma alma vazia.

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