
Esqueça tudo o que você pensa sobre “cuidado”. Em “Filosofia do Cuidado”, Boris Groys, com sua perspicácia incisiva, vira essa noção de cabeça para baixo, revelando-a não como uma virtude moral reconfortante, mas como a mais fria e fundamental das operações biopolíticas na era contemporânea.
Para Groys, a “filosofia do cuidado” é, antes de tudo, uma prática de gestão da vida e, crucialmente, da *morte*. Não se trata de empatia morna ou afeto altruísta, mas da complexa e muitas vezes perturbadora teia de mecanismos pelos quais a sociedade moderna – do Estado à internet – tenta preservar, controlar e arquivar a existência. Somos cuidados não no sentido de sermos nutridos em nossa vitalidade, mas de sermos transformados em dados, imagens e memórias que podem ser catalogados, protegidos e, paradoxalmente, imortalizados muito além do nosso frágil corpo biológico.
Este livro mergulha nas profundezas do que significa “cuidar” quando a vida se digitaliza e a morte se torna uma questão de “backup” e “restauração”. Groys explora como a burocracia estatal, os arquivos digitais, a arte e até mesmo a lógica da guerra são manifestações de um “cuidado” obcecado pela conservação – não da vida em si, mas de sua *representação*. A internet, nesse sentido, não é apenas um meio de comunicação, mas o maior asilo digital já concebido, um lugar onde a vida se perpetua como *informação*, onde a imagem se torna o substituto imortal do corpo mortal.
Groys nos convida a confrontar a estranha simbiose entre vida e sua representação, entre o ser e seu fantasma arquivado. Ele nos força a questionar: ao protegermos e armazenarmos incessantemente o que foi vivo, estamos realmente cuidando da vida ou apenas prolongando a agonia do seu vestígio? O “cuidado” de Groys não é sobre salvar o vivente, mas sobre criar uma imortalidade de segunda mão para o que inevitavelmente decai. É a proteção do *morto vivo* – das imagens, dos dados, das obras de arte que sobrevivem aos seus criadores e aos seus referentes.
Uma reflexão perturbadora sobre como, ao buscarmos estender a existência para além dos limites biológicos, transformamos nossa vitalidade em mero dado passível de catalogação. Uma leitura essencial para quem deseja decifrar as novas lógicas de poder na era digital, e para entender como o “cuidado” se tornou a mais sutil e onipresente forma de controle. Prepare-se para ver o mundo e a si mesmo sob uma luz nova – e talvez assustadora.
“Filosofia do cuidado” está à venda no site da Âyiné.








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