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“Um Apartamento em Urano” é um monumento filosófico à travessia do corpo

Paul B. Preciado recusa a Terra e suas categorias em crônicas que fundem política, identidade e desejo num horizonte desobediente, sem ceder ao didatismo nem à autoajuda identitária

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“Um Apartamento em Urano” é um monumento filosófico à travessia do corpo

Paul B. Preciado recusa a Terra e suas categorias em crônicas que fundem política, identidade e desejo num horizonte desobediente, sem ceder ao didatismo nem à autoajuda identitária


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Num mundo em que cada corpo é apressadamente nomeado, classificado e domesticado, Paul B. Preciado propõe algo radical: habitar a travessia. Um Apartamento em Urano, longe de ser um compilado de reflexões sobre identidade de gênero, é uma cartografia densa de tempos e territórios em colapso. O objetivo do filósofo espanhol é claro: recusar o binarismo como gramática da vida. Reunindo crônicas publicadas entre 2013 e 2018, majoritariamente no jornal francês Libération, o livro é uma espécie de jornal de bordo de quem se desloca entre continentes, sexos, nomes, idiomas, regimes e amores.

A chave de leitura é oferecida logo no título, extraído de um sonho: o apartamento em Urano como símbolo da dissidência, do deslocamento voluntário, do desejo de existir longe do regime epistemológico que ainda organiza os corpos na Terra. Urano, planeta frio e distante, foi o nome escolhido no século XIX por Karl Heinrich Ulrichs para designar os uranistas, almas femininas em corpos masculinos atraídas por outras almas masculinas. Preciado reivindica essa linhagem como ruptura: “Sou a multiplicidade do cosmos aprisionada num sistema binário”, escreve. E é nesse tensionamento entre linguagem e matéria, norma e potência, que suas crônicas se sustentam.

O texto de Preciado não é confortável. A cada nova página, ele parece explodir as categorias que haviam se organizado na anterior. A lista, forma recorrente em sua escrita, funciona como um dispositivo de desestabilização. Ele enumera conceitos, práticas, corpos, procedimentos, órgãos, políticas, como se quisesse provar que não há centro. O mundo, para Preciado, é excêntrico por definição. Essa fé na proliferação, por vezes, compromete a densidade analítica do texto. A metáfora se acumula sobre a metáfora, o conceito sobre o conceito, e o sentido por vezes se dilui em excesso. Mas seria um erro julgar a obra com o rigor acadêmico. Um Apartamento em Urano é mais literatura do que teoria, mais política da linguagem do que ensaio. O que importa é a vibração da voz, não a solidez da tese.

E há muita voz. Uma voz que resiste a ser neutralizada por qualquer forma de linguagem institucional. Uma voz que narra sua transição de gênero. Preciado escreve sobre o uso da testosterona como um xamã que manipula plantas para fabricar subjetividades. “Não queria ser homem, queria me tornar irreconhecível.” Há aqui um conceito que vale a pena destacar: phármakon. Tomado de Derrida, o termo designa simultaneamente remédio e veneno, cura e contaminação. A testosterona, nesse sentido é uma perturbação, um dispositivo de fuga.

Há trechos em que a prosa de Preciado atinge uma precisão lírica: “Os hormônios esculpem meu corpo como um cinzel microscópico trabalhando de dentro para fora.” Noutros momentos, a comparação entre o status político de pessoas trans e de migrantes soa forçada, mesmo se bem intencionada. Embora compartilhem vulnerabilidades, as condições materiais são radicalmente distintas, e o paralelo, ainda que potente como imagem, enfraquece como análise. O que não diminui o mérito da obra, que é justamente escapar da pureza discursiva. Preciado erra, corrige-se, muda de nome, abandona conceitos, expõe contradições – e é nesse gesto que sua escrita se torna ética.

Do ponto de vista formal, o livro transita entre crônica jornalística, manifesto e anotação íntima. Cada texto é uma cápsula de pensamento. Lê-lo de ponta a ponta é como assistir à última década passar em velocidade vertiginosa: Primavera Árabe, Brexit, Trump, identitarismo, Catalunha, Despentes, desejo. Mas o mais importante não é a atualidade dos temas, e sim a maneira como Preciado os contamina com sua linguagem. Ele escreve como quem injeta hormônios no próprio texto.

Um Apartamento em Urano é mais do que um livro sobre transição, chegando a ser também sobre a política dos corpos. Sobre como o sistema jurídico, médico, afetivo e simbólico insiste em impor uma gramática sexual à vida. E sobre como essa gramática pode – e deve – ser sabotada. Preciado é radical porque é vital. Ele não busca integrar-se ao mundo; ele deseja outro mundo. Um mundo com apartamentos em Urano. Um mundo onde a existência não precise mais ser legitimada por documentos, diagnósticos ou discursos autorizados.


“Um Apartamento em Urano”, Paul B. Preciado

Zahar

Avaliação: 5 de 5.

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