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Filme: “Zombies” (2019), Baloji

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Nas ruas pulsantes de Kinshasa, os mortos-vivos não se levantam de túmulos, mas fixam os olhos em telas luminosas, imersos num transe digital que redefine a própria noção de presença. O filme ‘Zombies’ do artista e realizador Baloji explora esta paisagem urbana onde a conectividade global colide com a realidade local de forma crua e estilizada. A obra acompanha diferentes personagens que navegam por este ecossistema elétrico de salões de beleza improvisados, mercados caóticos e clubes noturnos saturados de luz. Não há uma trama linear a ser seguida, mas sim um mosaico de momentos que capturam o espírito de uma juventude congolesa que se apropria da tecnologia e da cultura pop para forjar novas identidades, mesmo que isso implique um certo alheamento do mundo físico imediato. A visão de Baloji, ele próprio uma figura que transita entre a Europa e o Congo, oferece uma perspectiva singular sobre as dinâmicas de poder, consumo e autoexpressão na metrópole africana moderna.

O que torna a peça de Baloji um documento cultural relevante é a sua recusa em apresentar um julgamento moral sobre este fenômeno. Em vez disso, o filme funciona como um ensaio visual sobre a hibridização. A direção de arte transforma resíduos da globalização, como fardos de plástico e componentes eletrônicos, em paramentos quase cerimoniais, vestimentas de uma nova mitologia urbana. Esta estética, que dialoga com o afrofuturismo, não está ali apenas para o deleite visual; ela materializa a criatividade e a capacidade de adaptação que surgem neste cenário. A coreografia dos corpos, por vezes apáticos e por outras explosivos em dança, ilustra a tensão constante entre a passividade induzida pelo digital e a energia vital da cultura congolesa. Nesse universo, a vida se torna um espetáculo mediado por telas, uma ideia que ecoa as análises de Guy Debord sobre a sociedade da imagem, onde a autenticidade da experiência é constantemente negociada. O cinema de Baloji documenta a performance do eu numa era em que o virtual se tornou uma extensão inseparável do corpo e da comunidade.

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Nas ruas pulsantes de Kinshasa, os mortos-vivos não se levantam de túmulos, mas fixam os olhos em telas luminosas, imersos num transe digital que redefine a própria noção de presença. O filme ‘Zombies’ do artista e realizador Baloji explora esta paisagem urbana onde a conectividade global colide com a realidade local de forma crua e estilizada. A obra acompanha diferentes personagens que navegam por este ecossistema elétrico de salões de beleza improvisados, mercados caóticos e clubes noturnos saturados de luz. Não há uma trama linear a ser seguida, mas sim um mosaico de momentos que capturam o espírito de uma juventude congolesa que se apropria da tecnologia e da cultura pop para forjar novas identidades, mesmo que isso implique um certo alheamento do mundo físico imediato. A visão de Baloji, ele próprio uma figura que transita entre a Europa e o Congo, oferece uma perspectiva singular sobre as dinâmicas de poder, consumo e autoexpressão na metrópole africana moderna.

O que torna a peça de Baloji um documento cultural relevante é a sua recusa em apresentar um julgamento moral sobre este fenômeno. Em vez disso, o filme funciona como um ensaio visual sobre a hibridização. A direção de arte transforma resíduos da globalização, como fardos de plástico e componentes eletrônicos, em paramentos quase cerimoniais, vestimentas de uma nova mitologia urbana. Esta estética, que dialoga com o afrofuturismo, não está ali apenas para o deleite visual; ela materializa a criatividade e a capacidade de adaptação que surgem neste cenário. A coreografia dos corpos, por vezes apáticos e por outras explosivos em dança, ilustra a tensão constante entre a passividade induzida pelo digital e a energia vital da cultura congolesa. Nesse universo, a vida se torna um espetáculo mediado por telas, uma ideia que ecoa as análises de Guy Debord sobre a sociedade da imagem, onde a autenticidade da experiência é constantemente negociada. O cinema de Baloji documenta a performance do eu numa era em que o virtual se tornou uma extensão inseparável do corpo e da comunidade.

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