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“Female Trouble” é o ápice sujo, hilário e inteligente de John Waters

Filme transforma o grotesco em espetáculo, confunde arte e crime com naturalidade e coloca Divine no centro da performance mais ousada e impiedosa do cinema americano


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Em “Female Trouble”, John Waters eleva a imundície ao estatuto de forma. Lançado em 1974, o filme condensa com precisão tudo o que marca sua primeira fase: o riso que brota do escárnio, o corpo como terreno de guerra cultural, a blasfêmia como ferramenta estética. Mas não se trata apenas de estilo ou provocação. Trata-se de Divine. Esse é o filme que melhor exibe seu talento. Dawn Davenport, a adolescente histérica que vira criminosa, estrela de cabaré e prisioneira eletrocutada, é o papel que a desafia por completo, e Waters entende isso. Ele escreve, dirige e filma com atenção constante à atriz, como se registrasse uma santa pagã durante um transe. A narrativa acompanha as desventuras de Dawn que, após não ganhar os cha-cha heels de Natal, foge de casa, sofre estupro, engravida e inicia uma espiral de violência e degradação que inesperadamente conduz à fama.

“Female Trouble” é sujo, mal iluminado, gritado, irregular. A precariedade estética não enfraquece o filme, antes reforça sua intenção de sabotar os códigos de bom gosto e narrativas domesticadas. A Baltimore captada por Waters é uma cidade desajeitada, onde casas abandonadas servem de salão de beleza e a cadeia se converte em palco. Tudo exibe um kitsch calculado, do figurino ao papel de parede; nada está ali por acaso. O grotesco torna-se forma e a forma adquire força. Dawn é convocada por um casal de fotógrafos a cometer crimes em nome da arte: quanto mais grave o delito, mais bela ela seria. Surge ali uma tese visual, em que beleza e crime se fundem.

O filme também se destaca pela clareza com que expõe os mecanismos de domesticação social. A tia Ida, vivida por Edith Massey, lamenta que o sobrinho seja heterossexual. “O mundo dos heterossexuais é uma vida doente e entediante”, dispara, num diálogo que posteriormente se transformaria em meme na Internet. Waters defende o desvio, a torção, o que não se encaixa. Mais do que isso, mostra como o sistema absorve o escândalo desde que possa embalá-lo como espetáculo. Quando Dawn, deformada pelo ácido, sobe a um palco para atos obscenos diante de uma plateia eufórica, o filme alcança seu ponto mais crítico: a sociedade que rejeita também consome aquilo que rejeita.

Há aqui um debate filosófico discreto. A relação entre arte e crime, explorada do início ao fim, evoca a genealogia da moral de Nietzsche. Parece uma inversão de valores em que feiura, excesso e imoralidade viram potências criativas. Nada soa gratuito, mesmo quando tudo parece piada. A cena final, com Dawn a caminho da cadeira elétrica, resume o plano: ela encara a execução como se fosse um prêmio. A morte sela sua consagração, o crime vira coroação, a performance é a única forma de existir.

No conjunto, “Female Trouble” expõe a lógica que transforma sofrimento em espetáculo, desvio em fetiche, dor em entretenimento. O humor flerta com a crueldade e, por isso, funciona. É um filme que provoca riso desconfortável e repulsa curiosa. Divine, magnética e provocadora, encarna esse paradoxo. “Female Trouble” talvez seja a tradução mais fiel do cinema como território de excesso. Waters sabe exatamente o que faz, e acerta.


“Female Trouble”, John Waters

Disponível gratuitamente aqui

Avaliação: 5 de 5.

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