Em algum subúrbio esquecido de Baltimore, um espetáculo itinerante chamado ‘A Cavalgada da Perversão’ de Lady Divine atrai os curiosos da classe média com promessas de depravação real. Longe de ser apenas uma encenação, o show apresenta atrações genuínas como viciados em cola e um homem que de fato come vômito, tudo sob o comando da imponente e instável Lady Divine, interpretada pela musa do diretor, Divine. A proprietária do circo de bizarrices governa sua trupe de desajustados com mão de ferro, mas sua fachada de controle começa a ruir quando o tédio e a paranoia se instalam. A monotonia da vida na estrada e a crescente desconfiança em relação ao seu namorado, Mr. David, acendem um pavio que levará a uma explosão de violência e loucura.
O que começa como um retrato cáustico da vida à margem da sociedade rapidamente se transforma em uma jornada homicida. A suspeita de Divine sobre a infidelidade de Mr. David com uma de suas novas recrutas, Bonnie, a lança em uma fúria assassina que dissolve a já frágil estrutura de seu mundo. Deixando para trás a relativa segurança de sua tenda, Divine se torna uma fugitiva, vagando pelas ruas e encontrando figuras ainda mais perturbadoras do que as de seu próprio show, incluindo um encontro surreal com devotos religiosos que a levam a um novo patamar de delírio místico e profano. A narrativa abandona qualquer pretensão de linearidade e mergulha de cabeça na psique fragmentada de sua protagonista.
Aqui, a obra de Waters opera como um exercício prático sobre o conceito do abjeto: aquilo que a sociedade expele para se manter sã e ordenada. O filme não apenas exibe, mas celebra o que foi rejeitado – o excremento, a blasfêmia, o corpo fora de controle. Filmado em um granulado preto e branco de 16mm, com atuações que trocam o refinamento pela convicção visceral, ‘Multiple Maniacs’ é um documento bruto da estética do lixo que o diretor viria a consolidar. Cada cena parece concebida para testar a tolerância da audiência, não por mero sadismo, mas como uma afirmação de que há uma forma de arte e de vida pulsando nos detritos da cultura dominante. É a peça que estabelece o DNA do cinema de John Waters, um ataque frontal e bem-humorado contra a hipocrisia e o bom gosto.
O clímax abandona qualquer pretensão de lógica narrativa, culminando em uma sequência alucinatória envolvendo uma lagosta colossal chamada Lobstora e um ato de sacrilégio que solidificou a reputação de Divine e Waters no panteão do cinema underground. É a apoteose da transgressão, uma conclusão que garante que ninguém saia da sessão com suas noções de decência intactas. O filme funciona como um artefato cultural de seu tempo, um grito primal vindo das profundezas de uma Baltimore que poucos conheciam, e uma peça fundamental para entender a evolução do cinema independente americano e a carreira de um de seus mais singulares autores.









Deixe uma resposta