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Filme: “Não Matarás” (1989), Krzysztof Kieślowski

Numa Varsóvia cinzenta e opressiva, filtrada por uma paleta de cores doentia que tinge a cidade de amarelos e verdes sujos, três trajetórias distintas se movem em direção a um ponto de colisão inevitável. Acompanhamos Jacek, um jovem à deriva, vagando sem propósito aparente, cujos gestos alternam entre uma agressividade contida e uma melancolia desconcertante.…


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Numa Varsóvia cinzenta e opressiva, filtrada por uma paleta de cores doentia que tinge a cidade de amarelos e verdes sujos, três trajetórias distintas se movem em direção a um ponto de colisão inevitável. Acompanhamos Jacek, um jovem à deriva, vagando sem propósito aparente, cujos gestos alternam entre uma agressividade contida e uma melancolia desconcertante. Observamos também um taxista de meia-idade que navega pelo seu dia com pequenos atos de mesquinhez e indiferença. Por fim, conhecemos Piotr, um advogado recém-formado e idealista, prestes a ser admitido na ordem e cheio de convicções sobre a justiça. Krzysztof Kieślowski orquestra esses caminhos paralelos com uma distância clínica, até que Jacek entra no táxi e comete um ato de violência brutal, prolongado e desprovido de qualquer estética cinematográfica. O assassinato é desajeitado, difícil e visceralmente real.

A segunda metade de Não Matarás, a versão expandida do quinto episódio da série O Decálogo, desloca o seu foco para o sistema legal. Piotr, o jovem advogado, assume a defesa de Jacek. O processo judicial que se segue, e a consequente sentença de morte, é apresentado com a mesma frieza e o mesmo detalhe processual com que Kieślowski filmou o crime inicial. A preparação para a execução é meticulosa, mecânica, quase burocrática. O filme estabelece um paralelo direto e desconfortável entre os dois atos de matar: o crime passional e impulsivo de um indivíduo e a morte premeditada e organizada, sancionada pelo Estado. Não há diferença na brutalidade do resultado final, apenas no método e na legitimidade que o sistema lhe confere.

A abordagem de Kieślowski ecoa, talvez sem intenção direta, a noção de banalidade do mal, ao demonstrar como atos de imensa crueldade podem ser desprovidos de qualquer grandiosidade ideológica ou emocional. A violência aqui é suja, cansativa e executada por pessoas comuns. A câmera se detém em detalhes aparentemente insignificantes, na textura de uma corda, no funcionamento de uma guilhotina improvisada, na expressão vazia do carrasco. O diretor polonês não está interessado nas motivações psicológicas profundas que levaram Jacek ao seu ato; ele está focado na mecânica da morte. Ao fazer isso, o filme constrói um argumento poderoso contra a pena capital, não apelando para a inocência do condenado, mas para a equivalência moral dos atos.

A obra se recusa a oferecer catarse ou redenção. O que fica é a exposição de um ciclo de violência que se autoperpetua. Ao examinar o mandamento “Não Matarás” em sua forma mais absoluta, Kieślowski o aplica universalmente. A fotografia desoladora de Sławomir Idziak é fundamental para criar essa atmosfera de desesperança, um mundo onde a empatia parece ter sido drenada junto com as cores vibrantes. O resultado é uma obra que não busca justificar ou condenar seus personagens, mas sim dissecar o ato de matar em sua forma mais pura e perturbadora, deixando um argumento visual e visceral contra a prática, seja ela cometida por um indivíduo ou pelo próprio sistema.


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