Nas horas que antecedem a celebração do Noruz, o ano novo iraniano, uma determinação singular move a pequena Razieh pelas ruas movimentadas de Teerã. O seu desejo não é complexo, mas é absoluto: ela precisa de um peixinho dourado específico, um que viu na loja, gordo e ágil, para compor a mesa festiva. Após uma negociação insistente, sua mãe cede e lhe entrega a última nota de 500 tomans da casa. O que se segue, no roteiro minimalista e preciso de Abbas Kiarostami, é a crônica de um desastre iminente. A jornada de poucos quarteirões se converte numa odisseia em miniatura quando a nota escapa por entre os dedos da menina e cai numa grade de esgoto, fora de seu alcance. O relógio avança e a urgência de recuperar o dinheiro antes que as lojas fechem dita o ritmo da narrativa de Jafar Panahi em seu primeiro longa-metragem, O Balão Branco.
Panahi filma as ruas de Teerã não como um cenário, mas como um organismo pulsante, quase sempre a partir da perspectiva baixa e vulnerável de sua jovem protagonista. A câmera acompanha de perto a determinação de Razieh, que navega por um ecossistema de adultos ocupados, indiferentes ou ocasionalmente prestativos. Cada interação é uma peça funcional que revela uma faceta da sociedade iraniana da época: o soldado deslocado de sua província, os encantadores de serpentes que se tornam uma distração perigosa, um lojista impaciente e, finalmente, um menino afegão que vende balões. A estrutura em tempo real do filme injeta uma tensão palpável numa premissa que poderia ser trivial. A simplicidade do objetivo de Razieh contrasta com a complexidade e a burocracia sutil do mundo adulto, onde uma criança com um problema aparentemente pequeno se torna invisível.
A performance de Aida Mohammadkhani como Razieh é o motor da obra, uma demonstração de teimosia infantil que flerta com uma astúcia madura. Ela chora, manipula e argumenta com uma convicção que torna sua pequena busca uma questão de importância universal. Cada tentativa frustrada de alcançar a nota de dinheiro representa um momento de crise onde o tempo é crítico, uma janela de oportunidade que se abre e fecha com a passagem de cada estranho. Contudo, a genialidade da direção de Panahi se revela no desfecho. Após a resolução da busca pelo dinheiro, o foco da câmera se desloca, abandonando a menina para se fixar no garoto afegão, o ajudante silencioso que fica para trás com seu único balão branco. A questão do peixe se torna secundária. O filme nos deixa com a imagem de uma figura periférica, sugerindo que as histórias mais significativas podem ser aquelas que acontecem nas margens da narrativa principal. É uma estreia que estabelece o método de Panahi: usar o micro para observar o macro, encontrando as complexas dinâmicas sociais na mais simples das buscas humanas.




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