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Filme: “Irmão” (1997), Aleksey Balabanov

Na esteira da devastação chechena, o jovem Danila Bagrov chega a uma São Petersburgo gélida e pós-soviética em busca do irmão mais velho, Viktor, um notório atirador da máfia local. O filme Irmão, dirigido por Aleksey Balabanov, desenrola-se como uma observação crua da desilusão e do cinismo que permeavam a Rússia dos anos 90, e…


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Na esteira da devastação chechena, o jovem Danila Bagrov chega a uma São Petersburgo gélida e pós-soviética em busca do irmão mais velho, Viktor, um notório atirador da máfia local. O filme Irmão, dirigido por Aleksey Balabanov, desenrola-se como uma observação crua da desilusão e do cinismo que permeavam a Rússia dos anos 90, e Danila, recém-saído do serviço militar, rapidamente se vê arrastado para um submundo de dívidas e retribuições violentas. Longe da imagem de empresário bem-sucedido que o irmão lhe vendera, Viktor é, na verdade, uma peça de engrenagem num esquema de cobranças, e a chegada de Danila desequilibra o frágil arranjo.

O que se segue é uma imersão na rotina de um protagonista de poucas palavras, cujas ações falam mais alto do que qualquer diálogo. Danila, com sua ingenuidade aparente e um casaco de lã surrado, revela uma frieza surpreendente e uma eficácia letal ao lidar com os problemas que surgem, ora por lealdade familiar, ora por um senso de justiça muito particular. Ele transita entre becos sombrios, apartamentos precários e clubes de rock, cruzando caminhos com uma galeria de figuras marginalizadas: um sem-teto alemão, uma vendedora de rua, músicos de rock e uma motorista de bonde por quem nutre um afeto inesperado. Sua jornada é uma sucessão de encontros que pintam um retrato multifacetado da vida urbana russa, marcada pela escassez de oportunidades e pela brutalidade casual.

O filme se notabiliza por sua abordagem direta, quase documental, da violência e da moralidade difusa. Danila não é um reformador nem um revolucionário; ele é um sobrevivente, uma espécie de força da natureza que se adapta ao ambiente hostil com uma lógica implacável. Sua bússola moral é rudimentar, baseada em lealdades primárias e uma distinção simplista entre o “certo” e o “errado” em um mundo onde tais categorias parecem ter sido apagadas. A obra não julga seus personagens, mas os apresenta em sua crueza, permitindo que o público confronte a ausência de um código ético universal em tempos de colapso social. Balabanov captura uma melancolia profunda, uma resignação silenciosa que perpassa as paisagens urbanas e os destinos individuais, enquanto Danila, alheio a grandezas, apenas segue em frente, construindo sua própria ordem em meio ao caos.


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