Em Kaili, uma cidade subdesenvolvida na província de Guizhou, a umidade parece impregnar tudo, desde as paredes mofadas até as vidas estagnadas de seus habitantes. Neste cenário, Chen Sheng, um médico de uma pequena clínica com um passado no crime, vive uma rotina melancólica, assombrado por memórias e pela preocupação com seu pequeno sobrinho, Weiwei. Quando seu instável meio-irmão decide vender o garoto, Chen embarca em uma jornada de motocicleta para a cidade de Zhenyuan. A missão é dupla: resgatar Weiwei e, a pedido de uma antiga colega, entregar uma fotografia e uma fita cassete para um antigo amor doente. O que começa como uma busca aparentemente simples se transforma em uma odisseia através da paisagem e do próprio tempo.
A viagem de Chen o desvia para a cidade de Dandang, e é aqui que o filme de Bi Gan abandona as convenções narrativas para explorar uma temporalidade singular. Através de um impressionante plano-sequência de mais de 40 minutos, a câmera flutua com uma liberdade onírica, seguindo Chen e outros personagens em um fluxo contínuo que funde o passado, o presente e um possível futuro. Neste espaço-tempo alternativo, Chen encontra uma cabeleireira que se parece com sua falecida esposa e um jovem que se autodenomina Weiwei, como se fosse uma projeção adulta de seu sobrinho. O plano-sequência não é uma proeza técnica vazia, mas a própria gramática do filme, uma forma de materializar a maneira como a memória e o desejo se sobrepõem à realidade objetiva.
A obra opera em uma lógica que se aproxima do conceito de tempo como duração, onde o relógio objetivo é suplantado pela experiência subjetiva do fluxo da consciência. A poesia que Chen recita, muitas vezes em narração, não é um adorno, mas o motor rítmico que guia a cadência das imagens e os movimentos da história. Bi Gan constrói um universo onde o tempo não é linear, mas circular e poroso, permitindo que o passado informe o presente de maneira tangível. A busca por Weiwei torna-se menos o foco do que a jornada interna de Chen por suas próprias recordações e arrependimentos. O cinema de Kaili Blues é uma experiência sensorial que se interessa mais pela atmosfera e pela mecânica dos sonhos do que pela resolução de um enredo.




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