A jornada de Aviva, uma garota de treze anos com um otimismo quase patológico, começa com um desejo simples e profundamente perturbador: ela quer engravidar. Para Aviva, um bebê representa a promessa de um amor incondicional, um antídoto para a solidão que permeia seu ambiente familiar na Nova Jersey suburbana. A premissa, concebida por Todd Solondz, serve como ponto de partida para uma peregrinação por uma América disfuncional, um roteiro que se desdobra com a lógica implacável de um palíndromo, onde o fim ecoa o começo. A narrativa acompanha a fuga de Aviva de casa após seus pais a forçarem a um aborto, lançando-a em uma série de encontros com figuras que habitam as margens da sociedade, desde um caminhoneiro com intenções ambíguas até uma comunidade de crianças com deficiência que se autodenomina a “Família Sunshine”, liderada por uma figura maternal de compaixão duvidosa.
O que eleva ‘Palindromes’ para além de uma simples crônica de desventuras é a sua ousadia formal. Aviva não é interpretada por uma, mas por oito atrizes diferentes, variando em idade, etnia e tipo físico, incluindo uma criança obesa e uma mulher negra adulta. Essa fragmentação da protagonista não é um mero artifício, mas o próprio motor conceitual do filme. A escolha de Solondz ecoa o paradoxo filosófico do Navio de Teseu: se todas as partes de um objeto são substituídas, ele permanece o mesmo objeto? Da mesma forma, com a constante alteração de sua forma física, a essência de Aviva — sua determinação ingênua e seu anseio por maternidade — permanece inalterada, sugerindo uma identidade persistente que existe para além do corpo. A câmera de Solondz, com sua composição simétrica e paleta de cores dessaturada, observa esses eventos com uma distância clínica, recusando-se a sentimentalizar a situação ou a julgar seus personagens.
A obra funciona como uma peça complementar ao universo do diretor, revisitando a família de Dawn Wiener, de ‘Bem-vindo à Casa de Bonecas’, e aprofundando sua investigação sobre a inocência, a moralidade e a busca por conexão em um mundo indiferente. A comédia é sombria, extraída do absurdo das situações e do diálogo preciso e desconfortavelmente sincero. Solondz constrói um filme cuja estrutura obriga a uma reavaliação do que constitui a identidade, apresentando uma visão desconcertante e singular sobre a busca por um lugar no mundo. O resultado é uma experiência cinematográfica que se instala na mente, um conto de fadas pervertido que encontra uma estranha humanidade nos cantos mais sombrios da experiência americana.




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