Num espaço vazio e escuro, uma figura feminina vestida de branco flutua, seus movimentos fluidos e etéreos cortando o negrume. Logo, uma figura masculina junta-se a ela, iniciando a dança que dá nome à obra: um pas de deux. Este é o ponto de partida do curta de Norman McLaren para o National Film Board of Canada, uma peça que utiliza a coreografia de Ludmilla Chiriaeff e a performance de dois bailarinos dos Les Grands Ballets Canadiens não como seu tema final, mas como matéria-prima para uma alquimia cinematográfica. A narrativa é a do próprio movimento, a interação entre dois corpos que se encontram, se unem e se movem em harmonia.
O que se desdobra na tela é uma demonstração singular da técnica de impressão ótica, onde cada gesto é decomposto e multiplicado em camadas translúcidas. O resultado é um balé fantasmagórico, onde o rastro de cada passo e cada pirueta permanece visível, criando um eco visual que preenche o quadro. McLaren não está apenas a filmar a dança; ele está a reinterpretar a sua dinâmica através das ferramentas do cinema. A técnica não serve ao espetáculo, mas a uma ideia quase filosófica: a visualização da duração pura de um gesto, onde o passado imediato de uma ação coexiste com o seu presente. O corpo do bailarino torna-se um pincel, e o tempo, a sua tinta, pintando o espaço com a memória de si mesmo.
Longe de ser um mero exercício técnico, Pas de deux (1968) articula uma linguagem visual que investiga a própria natureza da parceria e da forma. A fusão das silhuetas multiplicadas dos dois bailarinos cria uma terceira entidade, uma forma cinética complexa que só poderia existir na tela. É uma obra que examina o potencial do meio cinematográfico para ir além da representação, para construir uma experiência sensorial única. Ao manipular a imagem com precisão rítmica, McLaren oferece uma nova gramática para o movimento, transformando uma performance de balé clássico numa peça de animação abstrata e pulsante, cujo legado reverbera na forma como o cinema e as artes visuais concebem a captura da dança.




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