Numa Rússia pós-revolucionária, onde a neve parece tentar apagar as memórias do império czarista, o mito da grã-duquesa desaparecida persiste como um sussurro de esperança e uma oportunidade de negócio. É neste cenário que encontramos Anya, uma órfã de dezoito anos com uma amnésia teimosa e um único pertence: um pendente que diz “Juntas em Paris”. O seu destino colide com o de Dimitri e Vladimir, dois charmosos vigaristas de São Petersburgo que procuram a candidata perfeita para se passar pela Anastasia perdida e reclamar a generosa recompensa oferecida pela Imperatriz Viúva, exilada numa Paris resplandecente. O que começa como um golpe cínico transforma-se numa jornada pela Europa que é, simultaneamente, uma viagem ao passado fragmentado de Anya.
A direção de Don Bluth e Gary Goldman estabelece uma paleta visual distinta que serve de motor narrativo. A São Petersburgo que o trio abandona é um mundo de tons de cinza e sépia, de arquitetura grandiosa em decadência. Em contraste, a Paris que os espera é uma explosão de cor, luz e movimento, um epicentro de modernidade e romantismo capturado com uma fluidez de animação que era a assinatura do estúdio. A viagem de comboio, o naufrágio e os encontros são pontuados pela ameaça de uma força sobrenatural, Rasputin, reimaginado não como uma figura histórica, mas como um feiticeiro em decomposição no limbo, cuja vingança contra os Romanov se manifesta através de demónios verdes e etéreos. Esta escolha afasta a obra de qualquer pretensão de rigor histórico para abraçar plenamente o conto de fadas gótico.
A questão central do filme não se limita a confirmar a linhagem de Anya. O que se desenrola é uma exploração sobre a construção da identidade. Anya não se lembra de ser Anastasia; ela aprende a sê-lo, absorvendo as lições de Vlad, reagindo às memórias que a música desperta e, mais importante, descobrindo uma versão de si mesma que se alinha com a lenda. A sua identidade não é um facto a ser redescoberto, mas uma narrativa a ser montada a partir de peças de um puzzle – um vestido, uma canção de embalar, o cheiro de menta. O filme parece sugerir que somos, em parte, as histórias que nos contamos sobre nós próprios, e que a pertença pode ser encontrada não apenas no sangue, mas no caminho que se percorre para se encontrar.
As composições musicais de Stephen Flaherty e Lynn Ahrens são mais do que meros interlúdios; funcionam como monólogos interiores que impulsionam a narrativa. “Once Upon a December” é uma valsa fantasmagórica que assombra Anya, um eco de um passado que ela sente mas não consegue nomear, enquanto “Journey to the Past” é um hino de determinação, a sua tese sobre a necessidade de ter uma história para poder ter um futuro. Lançado numa época dominada pela renascença da Disney, Anastasia afirmou-se como uma produção de enorme ambição artística e técnica, oferecendo uma estória de princesa com uma melancolia eslava e uma sofisticação visual que continua a singularizar a obra no panteão da animação ocidental.




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