Em um canto sombrio da cinematografia britânica, onde o realismo social colide com o horror pagão, o filme ‘Kill List’ de Ben Wheatley se apresenta não como um quebra-cabeça a ser resolvido, mas como uma febre da qual se acorda desorientado. A narrativa começa com uma familiaridade desconfortável: Jay, um ex-soldado e agora assassino de aluguel, vive uma existência pós-traumática marcada por disputas domésticas com a sua esposa Shel e uma ansiedade financeira palpável. A tensão inicial é construída não com artifícios de género, mas com a crueza de um jantar entre amigos que explode em ressentimento e violência contida, estabelecendo um terreno de instabilidade psicológica muito antes do primeiro gatilho ser puxado.
A aparente solução para os problemas do casal surge na forma de um novo contrato, apresentado pelo parceiro de Jay, Gal. Trata-se de uma lista de alvos, figuras aparentemente banais cujas eliminações prometem um pagamento substancial. É neste ponto que a estrutura do filme executa uma viragem subtil mas decisiva. O que se inicia como um thriller criminal convencional, com a sua logística e execuções frias, começa a ser infiltrado por uma estranheza persistente. Cada alvo, antes de sucumbir, agradece ao seu carrasco, e símbolos enigmáticos começam a aparecer, sugerindo uma conspiração que opera para além da compreensão dos seus próprios peões. Wheatley filma a violência sem qualquer glamour, focando no seu peso físico e na sua repercussão caótica, tornando cada ato mais perturbador do que o anterior.
A descida de Jay ao âmago da sua missão espelha o seu colapso interno. A brutalidade do trabalho, que antes era compartimentada, começa a sangrar para a sua vida pessoal, corroendo as fundações da sua sanidade e do seu lar. É aqui que o filme abandona por completo as convenções do thriller e se revela como uma obra de folk horror moderno, onde a lógica do mundo urbano e racional se desfaz perante um sistema de crenças antigo e implacável. O que antes era um trabalho externo agora contamina o núcleo familiar, num processo que evoca a noção filosófica do abjeto, onde as fronteiras entre o eu e o outro, o limpo e o impuro, são violentamente dissolvidas.
O clímax de ‘Kill List’, ambientado nos bosques de uma comunidade isolada, não oferece catarse ou explicações fáceis. Pelo contrário, cimenta a sensação de que Jay nunca esteve no controlo, sendo apenas uma peça funcional dentro de um ritual maior e mais terrível. A obra de Ben Wheatley permanece potente pela sua capacidade de fundir o mundano com o oculto, criando uma atmosfera de pavor que se aloja sob a pele. É um estudo sobre como a violência, uma vez desencadeada, segue uma trajetória própria e incontrolável, culminando não numa revelação, mas na aceitação sombria de uma ordem macabra que sempre esteve presente, apenas à espera do seu próximo participante.




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