Bernardo Bertolucci filma o Norte da África do pós-guerra como um palco para o desmoronamento de um casal americano, os Moresby. Port, um compositor interpretado por John Malkovich, e Kit, uma escritora encarnada por Debra Winger, chegam a Tânger com seu amigo abastado, George Tunner. Eles não se consideram turistas, mas sim viajantes, numa distinção que revela tanto seu elitismo intelectual quanto sua profunda desconexão com o mundo e um com o outro. Buscando uma experiência autêntica para reanimar um casamento desgastado pela apatia e por infidelidades mútuas, eles mergulham cada vez mais fundo no continente, acreditando que a distância geográfica poderá, de alguma forma, resolver suas fraturas internas. A obra, baseada no romance de Paul Bowles, estabelece desde o início que a jornada não será de redescoberta, mas de perda.
A vastidão do deserto, capturada pela cinematografia monumental de Vittorio Storaro, funciona como um elemento ativo na narrativa, um espaço indiferente que gradualmente despoja os personagens de suas máscaras civilizadas. A luz ofuscante e as sombras profundas do Saara expõem a fragilidade de suas identidades e a superficialidade de suas preocupações ocidentais. É aqui que a obra se aproxima de um certo existencialismo, onde a ausência de um propósito definido e a imensidão do nada forçam uma confrontação com o vazio interior. Port busca o isolamento como uma forma de controle intelectual, enquanto Kit, mais instintiva e temerosa, sente a paisagem como uma ameaça palpável. A viagem, que deveria ser uma fuga, torna-se uma armadilha psicológica a céu aberto, onde cada quilómetro percorrido apenas aprofunda o abismo entre eles.
Após um evento transformador que redefine a dinâmica da viagem, o foco se desloca inteiramente para a jornada de Kit. Sua trajetória se torna uma imersão sensorial e, por vezes, silenciosa, numa cultura que a absorve por completo, apagando suas referências anteriores. Bertolucci explora essa segunda metade com uma cadência distinta, quase onírica, documentando a dissolução final de uma identidade em face de uma realidade avassaladora. O próprio Paul Bowles, autor do romance original, surge como narrador para questionar a fragilidade da existência e a nossa percepção do tempo, lembrando o quão poucas vezes realmente nos damos conta dos momentos que constituem uma vida. O Céu que nos Protege é, no fim, menos sobre os eventos que ocorrem e mais sobre a atmosfera opressiva da liberdade absoluta e a forma como a paisagem pode refletir e amplificar a desolação da alma.




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