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Filme: “Tratado sobre a baba e a eternidade” (1951), Isidore Isou

Um jovem chamado Daniel deambula pelas ruas de Saint-Germain-des-Prés, mas o que vemos na tela raramente o acompanha. Em seu lugar, surge uma cascata de imagens desconexas: trechos de filmes antigos, rolos de celuloide virgens, sequências inteiras riscadas e desfiguradas com tinta, ou mesmo a tela completamente branca ou preta. Sobre essa torrente de cinzas…


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Um jovem chamado Daniel deambula pelas ruas de Saint-Germain-des-Prés, mas o que vemos na tela raramente o acompanha. Em seu lugar, surge uma cascata de imagens desconexas: trechos de filmes antigos, rolos de celuloide virgens, sequências inteiras riscadas e desfiguradas com tinta, ou mesmo a tela completamente branca ou preta. Sobre essa torrente de cinzas visuais, uma voz implacável, a do próprio realizador Isidore Isou, declama um monólogo torrencial. É uma verborragia poética e combativa que aborda a juventude, a revolução na arte, o amor e, acima de tudo, a necessidade de aniquilar a forma cinematográfica como a conhecemos. A imagem e o som não apenas seguem caminhos distintos, eles se opõem ativamente, criando um campo de batalha para os sentidos onde nenhuma convenção narrativa sobrevive.

Este não é um filme que conta uma história, mas sim um ato que executa uma teoria. O ‘Tratado sobre a baba e a eternidade’, peça central do movimento Letrista, é a demonstração prática do conceito de “cinema discrepante” de Isou. A sua premissa é uma dissecação radical do meio cinematográfico, reduzindo-o aos seus componentes mais básicos para propor uma nova sintaxe. Isou argumentava que o cinema, saturado pela ditadura da imagem, precisava ser purificado. A imagem, para ele, tornou-se “baba”, um lodo insignificante, enquanto a verdadeira “eternidade” residia na palavra, no som, no verbo. Ao destruir fisicamente a película e ao emancipar a banda sonora, Isou realiza um ataque frontal à própria estrutura do cinema, forçando o espectador a abandonar a passividade e a confrontar os mecanismos da criação audiovisual. O filme, que causou tumulto em sua estreia em Cannes em 1951, funciona menos como uma obra para ser apreciada e mais como um manifesto para ser decifrado, um documento fundamental que marcou o ponto de rutura para boa parte da vanguarda que se seguiria.


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