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Filme: “La sapienza” (2014), Eugène Green

Alexandre, um arquiteto de renome no auge da sua carreira, confronta uma estagnação profissional e existencial que o leva a abandonar um prestigioso projeto. Em busca de um novo fôlego, ele decide revisitar uma antiga paixão de juventude: um estudo sobre o arquiteto barroco Francesco Borromini. Acompanhado pela sua esposa Aliénor, cuja relação com ele…


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Alexandre, um arquiteto de renome no auge da sua carreira, confronta uma estagnação profissional e existencial que o leva a abandonar um prestigioso projeto. Em busca de um novo fôlego, ele decide revisitar uma antiga paixão de juventude: um estudo sobre o arquiteto barroco Francesco Borromini. Acompanhado pela sua esposa Aliénor, cuja relação com ele se tornou distante e funcional, partem para a Itália. O plano é uma viagem de pesquisa por Stresa, Turim e Roma, seguindo os passos das construções de Borromini, mas a jornada rapidamente se desvia do seu curso académico quando o casal encontra Goffredo e Lavinia, dois irmãos adolescentes. O encontro casual revela uma oportunidade inesperada de troca: Alexandre propõe levar Goffredo, um estudante de arquitetura prestes a abandonar o curso, na sua peregrinação, enquanto Aliénor permanece em Stresa com Lavinia, que sofre de uma condição psicossomática.

O filme de Eugène Green, La Sapienza, se desdobra a partir dessa premissa, mas sua verdadeira substância reside na forma como a narrativa é construída. A estilização formal, uma marca do realizador, manifesta-se na dicção precisa e antinaturalista dos atores, nos seus olhares diretos para a câmara e numa economia de gestos que transforma cada cena num pequeno ritual. Esta abordagem afasta o espectador de uma imersão convencional para o colocar numa posição de observador atento, onde a palavra e a imagem ganham um peso singular. A viagem de Alexandre e Goffredo torna-se uma aula a céu aberto, onde as igrejas e palácios de Borromini não são meros cenários, mas os verdadeiros interlocutores. A câmara de Green não se limita a documentar a arquitetura; ela a investiga, explorando as curvas, a luz e a sombra como se fossem manifestações de um pensamento complexo e de uma espiritualidade palpável.

Paralelamente, a interação entre Aliénor e Lavinia oferece um contraponto íntimo e igualmente profundo. Longe da grandiosidade barroca, o seu percurso é um de cura e redescoberta mútua, focado na palavra, no cuidado e na superação de traumas silenciosos. La Sapienza articula a ideia de que o conhecimento, a verdadeira sabedoria que o título sugere, não é algo que se possui, mas que se transmite. Alexandre, ao ensinar Goffredo, reaprende a sentir a sua própria vocação. A arquitetura, no filme, funciona como um catalisador para a alma, um meio através do qual a luz pode reorganizar não apenas o espaço físico, mas também as geometrias internas das personagens. A obra de Green é uma análise rigorosa sobre a transmissão de legados, a crise da meia idade e a capacidade da arte de reestruturar a percepção humana, tudo orquestrado com uma clareza formal que é, em si mesma, uma declaração de princípios.


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