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Filme: “Poltergeist – O Fenômeno” (1982), Tobe Hooper

No coração de Cuesta Verde, um subúrbio californiano imaculado e planejado até o último metro quadrado de grama, a família Freeling vive o sonho americano dos anos 80. Steve é um corretor imobiliário de sucesso, vendendo exatamente o tipo de vida que ele próprio desfruta com sua esposa Diane e seus três filhos. O cotidiano…


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No coração de Cuesta Verde, um subúrbio californiano imaculado e planejado até o último metro quadrado de grama, a família Freeling vive o sonho americano dos anos 80. Steve é um corretor imobiliário de sucesso, vendendo exatamente o tipo de vida que ele próprio desfruta com sua esposa Diane e seus três filhos. O cotidiano é uma sinfonia de normalidade, até que a filha mais nova, Carol Anne, começa a conversar com a estática da televisão após o encerramento da programação. A frase infantil e assustadora, “Eles estão aqui”, é o prelúdio para a desintegração completa da segurança doméstica. O que começa com fenômenos quase lúdicos, como cadeiras que deslizam sozinhas pela cozinha, rapidamente se transforma em um ataque orquestrado e violento por uma entidade que sequestra a menina para uma dimensão dentro das paredes da casa.

O que torna “Poltergeist – O Fenômeno” uma obra tão duradoura é a forma como Tobe Hooper, com a sensibilidade produtiva de Steven Spielberg, articula o horror não como uma invasão externa, mas como uma implosão do familiar. O filme explora com maestria o conceito freudiano do ‘Unheimlich’, o estranho familiar, onde os objetos de conforto e alegria, como os brinquedos de uma criança ou o aparelho de televisão, se tornam os condutores do terror. A casa dos Freeling não é uma mansão gótica ancestral; é um produto de prateleira, novo em folha, cuja ameaça vem de um pecado capitalista original: a ganância que levou à construção do condomínio sobre um cemitério, sem o devido respeito aos mortos. A televisão, a fogueira eletrônica ao redor da qual a família moderna se reunia, se revela um portal para um purgatório furioso.

A narrativa evita a armadilha de se concentrar apenas nos sustos, investindo tempo na dinâmica crível da família e na metodologia quase científica da equipe de parapsicólogos chamada para investigar. A chegada da médium Tangina Barrons, uma figura pequena com uma autoridade imensa, desloca o filme para um território de combate espiritual, onde a força do amor materno é a única arma contra um fenômeno que desafia a lógica e a física. Os efeitos especiais, pioneiros para a época, servem à história de forma visceral, desde a cena icônica da carne se desfazendo no balcão até a árvore que ganha vida própria.

Mais do que uma simples história de fantasmas, o filme funciona como um documento cultural sobre as ansiedades de uma era de consumismo desenfreado e sobre a frágil fundação sobre a qual a paz suburbana é construída. A perturbação não é causada por um mal antigo e distante, mas por um erro recente, uma profanação motivada pelo lucro, cujas consequências recaem sobre uma família inocente. Ao final da projeção, a estática na tela nunca mais parece a mesma, servindo como um ruído branco que pode ocultar qualquer coisa.


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