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Filme: “Come and Go” (2003), João César Monteiro

“Ir e Vir”, o derradeiro trabalho de João César Monteiro no cinema português, apresenta a figura de João de Deus, um homem de idade avançada que empreende uma série de deslocamentos, aparentemente sem um propósito claro, por paisagens de Portugal. Frequentemente acompanhado por uma enfermeira, ele atravessa percursos, sejam eles em automóveis, hospitais ou espaços…


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“Ir e Vir”, o derradeiro trabalho de João César Monteiro no cinema português, apresenta a figura de João de Deus, um homem de idade avançada que empreende uma série de deslocamentos, aparentemente sem um propósito claro, por paisagens de Portugal. Frequentemente acompanhado por uma enfermeira, ele atravessa percursos, sejam eles em automóveis, hospitais ou espaços urbanos, interagindo com outros personagens de forma breve, quase cerimonial. A narrativa traça a rotina desse indivíduo, pontuada por exames médicos, consultas e uma observação distanciada do cotidiano. É uma exploração da vida em seu fluxo mais mundano, onde cada cena se desenrola com uma calma contemplativa, revelando a passagem do tempo e a persistência da existência em suas formas mais básicas.

A relevância do filme amplifica-se ao considerarmos que o próprio João César Monteiro personifica João de Deus. Esta escolha transforma a obra em um documento autobiográfico inegável, à medida que o cineasta lida publicamente com a sua própria fragilidade física e com o avançar da idade. O que poderia ser uma simples crónica de um quotidiano torna-se uma meditação visual sobre o encerramento de um ciclo de vida e carreira, expressa não por diálogos explicativos ou grandes acontecimentos, mas através da persistência do olhar e da fisicalidade do corpo em decadência. O espectador presencia um testemunho silencioso de uma jornada pessoal e artística em seus estágios finais, com uma dignidade particular e uma dose de ironia.

Monteiro emprega sua assinatura autoral, marcada por planos longos, um ritmo deliberado e uma ausência calculada de artifícios narrativos convencionais. Essa abordagem formal, que por vezes se assemelha a um diário visual, permite que a condição humana seja examinada em sua crueza e vulnerabilidade. Há um conceito subjacente de que a existência é um fluxo contínuo de presenças e ausências, de chegadas e partidas – um ir e vir incessante que define a própria natureza da vida. Os encontros fugazes e a aparente indiferença entre os personagens sublinham uma certa universalidade na solidão individual. O filme oferece uma experiência que exige paciência, mas recompensa com uma observação desprovida de sentimentalismo sobre a transitoriedade e a inevitabilidade.

Ao final, “Ir e Vir” se estabelece como uma declaração cinematográfica singular. É uma obra que se sustenta pela força de sua autenticidade e pela coragem em abordar temas universais através de uma perspectiva extremamente pessoal. Sem apelos fáceis ou discursos grandiosos, o filme oferece uma visão desapaixonada e, ainda assim, profundamente humana sobre o curso da vida e o derradeiro confronto com a finitude, um marco no legado do cinema de autor português.


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