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Filme: “Julieta” (2016), Pedro Almodóvar

Julieta se prepara para um novo capítulo em Lisboa, pronta para deixar para trás uma Madrid melancólica e uma vida pautada por uma ausência avassaladora. No entanto, um encontro fortuito no centro da cidade com Beatriz, uma antiga amiga de sua filha Antía, desfaz seus planos. A simples menção de que Antía está viva e…


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Julieta se prepara para um novo capítulo em Lisboa, pronta para deixar para trás uma Madrid melancólica e uma vida pautada por uma ausência avassaladora. No entanto, um encontro fortuito no centro da cidade com Beatriz, uma antiga amiga de sua filha Antía, desfaz seus planos. A simples menção de que Antía está viva e bem, e que foi vista recentemente, paralisa Julieta. Essa revelação inesperada a impele a adiar a mudança e a retornar ao antigo apartamento onde morava com a filha, iniciando uma jornada introspectiva através de uma longa carta.

A escrita se torna o veículo para desenterrar memórias que, por doze anos, permaneceram enterradas sob camadas de dor e silêncio. A narrativa desliza entre o presente da Julieta madura, interpretada por Emma Suárez, e os vibrantes flashbacks da Julieta jovem, vivida por Adriana Ugarte. Acompanhamos o romance avassalador com Xoan, um pescador galego que viria a ser o pai de Antía, e a forma como a tragédia, inesperadamente, se insere nesse cotidiano. A trama se desenrola mostrando como eventos aparentemente desconexos se entrelaçam para selar o destino de uma família, culminando no misterioso afastamento de Antía após a morte do pai.

O filme desvenda a complexidade das relações maternas e o peso da culpa não verbalizada. Não se trata apenas de uma busca por uma filha desaparecida, mas de um doloroso mergulho na própria identidade de uma mulher forçada a confrontar as ramificações de suas escolhas e omissões. Almodóvar constrói uma atmosfera em que a ausência se manifesta como uma força quase tangível, moldando o presente da protagonista. A memória, aqui, é menos um registro fiel do passado e mais uma narrativa em constante reescrita, influenciada pela necessidade de compreensão e, talvez, de redenção. Julieta busca reconstituir não apenas o paradeiro de Antía, mas a lógica que levou ao colapso de sua própria existência, revelando como o não dito e as verdades retidas podem reverberar por gerações. A obra propõe uma meditação sobre a implacável correnteza do tempo e o impacto duradouro dos segredos, deixando ao espectador a tarefa de ponderar sobre a fragilidade dos laços familiares e o sempre presente fio que conecta o passado ao presente.


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