Numa noite de chuva torrencial na região do Douro, Isaac, um fotógrafo judeu expatriado que vive numa modesta pensão, recebe um pedido invulgar. Uma família abastada solicita os seus serviços para tirar um último retrato da sua filha, Angélica, uma jovem de beleza serena que acaba de falecer. Munido da sua câmara fotográfica antiga, Isaac dirige-se à imponente casa e prepara-se para o trabalho macabro. Ao olhar pela lente para enquadrar o rosto da noiva morta, o impossível acontece: Angélica abre os olhos e sorri-lhe, um gesto íntimo e fugaz visível apenas para ele, através do aparelho que deveria apenas capturar a imobilidade da morte.
Este momento singular transforma-se no catalisador de uma paixão necrófila e platónica. De regresso à sua pensão, Isaac é assombrado pela imagem de Angélica. A fotografia que revelou torna-se um objeto de veneração e o portal para os seus encontros sobrenaturais. A jovem passa a visitá-lo em espírito, flutuando do lado de fora da sua janela, convidando-o a juntar-se a ela num plano etéreo. A sua rotina, que envolve documentar o trabalho árduo dos cavadores nas vinhas, uma tarefa profundamente ligada à terra e ao esforço físico, torna-se um contraponto terreno para as suas noites de assombro celestial. A obsessão de Isaac aliena-o do mundo real, incluindo da atenção de uma das funcionárias da pensão, tornando a sua jornada cada vez mais solitária e introspectiva.
Manoel de Oliveira filma esta história com a sua habitual sobriedade formal, utilizando planos maioritariamente estáticos que conferem uma qualidade pictórica a cada cena. A câmara não persegue a ação, mas espera que ela se desenrole no seu campo de visão, uma escolha que posiciona o espectador como um observador paciente e atento. A experiência de Isaac com a fotografia de Angélica ecoa o conceito de “punctum” de Roland Barthes, aquele detalhe numa fotografia que atinge o observador de forma pessoal e intransferível, uma ferida que abre uma conexão para além do puramente informativo. Para Isaac, o sorriso de Angélica é esse “punctum”, que o retira da realidade objetiva e o lança numa busca espiritual pelo amor impossível. O filme investiga a capacidade da arte de criar uma realidade própria, um refúgio ou uma condenação, onde a fronteira entre o que é visto e o que é sentido se dissolve por completo.




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