Polytechnique, de Denis Villeneuve, é uma incursão sóbria e direta no coração de um dos eventos mais perturbadores da história recente do Canadá: o ataque de 6 de dezembro de 1989 à Escola Politécnica de Montreal. O filme abstém-se de qualquer floreio sensacionalista, optando por uma reconstrução meticulosa e quase clínica daquele dia fatídico. A escolha pelo preto e branco amplifica a aridez dos corredores e salas de aula da instituição, desnudando a cena de cores para concentrar o olhar no horror fundamental que ali se desenrola.
A narrativa acompanha Valérie e Jean-François, estudantes de engenharia cujas vidas são drasticamente alteradas quando um homem armado entra no campus, separando e atacando mulheres por um ódio declarado ao feminismo e à ascensão feminina em campos profissionais. Villeneuve não busca dramatização excessiva; em vez disso, sua câmera atua como uma observadora impassível, registrando os momentos de pânico, a incompreensão inicial e a resignação forçada diante da violência inesperada. A ausência de julgamentos explícitos sobre o perpetrador realça o vazio e a arbitrariedade do ato, focando o trauma coletivo e individual que se estende para muito além dos tiros.
A profundidade da obra reside na forma como ela aborda as reverberações de tal barbárie. A cinematografia austera e a edição precisa contribuem para uma atmosfera de severidade, onde cada som – um tiro, um gemido, o silêncio que se segue – é carregado de peso. O filme examina como um ambiente de aprendizado e ambição pode ser abruptamente transformado em palco para uma manifestação de misoginia extrema. Não se trata de buscar causas ou soluções simples, mas de apresentar a crueza de uma tragédia e as cicatrizes invisíveis que ela deixa. A obra explora a frágil estrutura da segurança cotidiana e como ela pode ser pulverizada por atos de ódio irracional, forçando uma reavaliação da própria noção de vulnerabilidade humana em espaços outrora considerados invioláveis. Polytechnique, em sua austeridade visual e narrativa, serve como um poderoso depoimento sobre a indelével marca da violência e o esforço para confrontar o ininteligível.




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