Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Lírios d’Água” (2007), Céline Sciamma

Marie, uma garota de 15 anos à beira da adolescência, observa fascinada a equipe de nado sincronizado de seu colégio. O ritual aquático, a beleza etérea das meninas em perfeita coordenação, o brilho da água sobre a pele, tudo a atrai irresistivelmente. Em um ato impulsivo, quase um tropeço no desconhecido, ela declara a todos…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Marie, uma garota de 15 anos à beira da adolescência, observa fascinada a equipe de nado sincronizado de seu colégio. O ritual aquático, a beleza etérea das meninas em perfeita coordenação, o brilho da água sobre a pele, tudo a atrai irresistivelmente. Em um ato impulsivo, quase um tropeço no desconhecido, ela declara a todos que fará parte da equipe, apesar da sua completa inaptidão para o esporte.

Este é o ponto de partida de “Lírios d’Água”, o filme de estreia de Céline Sciamma que mergulha nas profundezas da sexualidade adolescente com uma honestidade desconcertante. Marie, interpretada com uma vulnerabilidade palpável por Pauline Acquart, é obcecada por Floriane, a capitã da equipe, uma figura enigmática envolta em boatos e desejos. A atração de Marie é complexa, uma mistura de admiração, inveja e um anseio confuso por algo que ela ainda não consegue nomear. Ao mesmo tempo, ela se aproxima de Anne, uma garota mais agressiva e sexualmente experiente, que a introduz a um mundo de experimentação e descobertas precoces.

A narrativa se desenrola em torno desse triângulo amoroso peculiar, explorando a confusão e a intensidade dos primeiros desejos. Sciamma evita clichês e moralismos, retratando suas personagens com empatia e nuances. Não há julgamentos, apenas a busca hesitante por identidade e conexão em um universo onde a linguagem do corpo fala mais alto que as palavras. “Lírios d’Água” capta a fluidez da adolescência, um período de transição em que as certezas se desfazem e as fronteiras entre amizade e paixão se tornam nebulosas. O filme ecoa a filosofia de Deleuze sobre o “devir”, a ideia de que a identidade não é algo fixo, mas um processo constante de transformação e movimento. As garotas não são definidas por seus desejos, mas sim moldadas por eles, em um processo contínuo de descoberta e reinvenção. A piscina, com sua superfície lisa e reflexiva, serve como metáfora para essa fluidez, um espaço onde as identidades se confundem e se transformam.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading