A premissa de A Besta Cega, de Yasuzô Masumura, se desenrola com uma simplicidade brutal: uma modelo, Aki, é raptada em plena luz do dia e levada para o ateliê de Michio, um escultor cego. O local não é um cativeiro comum, mas um armazém surrealista, um espaço cavernoso povoado por gigantescas partes de corpos femininos esculpidas em gesso: seios, pernas e torsos que transformam o ambiente num monumento à forma humana desmembrada. Acompanhado por sua mãe igualmente peculiar, Michio não busca um resgate ou uma gratificação sádica convencional. Seu objetivo é puramente estético: ele deseja usar o corpo de Aki para criar sua obra-prima final, uma estátua que capture a essência da beleza feminina, percebida unicamente através do toque.
O que se segue é menos um thriller de sequestro e mais um mergulho radical na psicose da criação artística, onde a obsessão por uma forma perfeita dissolve qualquer fronteira entre criador, musa e matéria-prima. Masumura filma esse psicodrama claustrofóbico com uma paleta de cores saturadas e uma câmera que parece tão obcecada quanto seus personagens, focando em texturas, peles e superfícies. A dinâmica de poder inicial, com Aki como prisioneira, gradualmente se desfaz. A sua luta pela sobrevivência se transforma numa curiosidade mórbida e, por fim, numa participação ativa na fantasia sensorial de Michio. Ela o ensina a “ver” através de suas mãos, enquanto ele a introduz a um universo onde a visão é um sentido secundário, quase um empecilho. O filme articula uma espécie de fenomenologia da carne, onde a percepção da realidade é reconstruída pela primazia do corpo e da experiência tátil sobre a imagem.
A jornada do casal rumo à fusão absoluta entre arte e vida atinge um clímax de transgressão que solidificou A Besta Cega como uma obra central do movimento ero guro nansensu. A busca pela escultura perfeita se torna uma busca pela desintegração dos próprios corpos, uma tentativa de se tornarem, eles mesmos, a arte final. Longe de ser apenas um exercício de choque, o trabalho de Masumura funciona como uma análise incisiva sobre o isolamento, a natureza do desejo e a pulsão humana de eternizar a beleza, mesmo que o custo seja a aniquilação. É um cinema físico, que opera diretamente nos sentidos do espectador, deixando uma impressão tátil muito depois que as imagens se apagam.




Deixe uma resposta