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Filme: “Troll 2” (1990), Claudio Fragasso

Poucos filmes conseguem atingir o status de fenômeno cultural sem sequer tentar, mas ‘Troll 2’, a obra de 1990 dirigida por Claudio Fragasso, navega por essa estranha fronteira com uma desenvoltura desconcertante. Este artefato peculiar do cinema bizarro dos anos 90, que se autodenomina horror, apresenta uma trama que, desde o princípio, sinaliza uma viagem…


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Poucos filmes conseguem atingir o status de fenômeno cultural sem sequer tentar, mas ‘Troll 2’, a obra de 1990 dirigida por Claudio Fragasso, navega por essa estranha fronteira com uma desenvoltura desconcertante. Este artefato peculiar do cinema bizarro dos anos 90, que se autodenomina horror, apresenta uma trama que, desde o princípio, sinaliza uma viagem fora do comum.

A trama centra-se na família Waits, que troca a rotina urbana por uma suposta e tranquila estadia em Nilbog – um nome que já sugere o caos latente. O jovem Joshua, o filho, é o primeiro a sentir a estranha atmosfera, ao ser alertado por um espírito de seu avô sobre a iminente ameaça de goblins vegetarianos. Sim, goblins, não trolls, que tramam converter humanos em matéria vegetal para seus banquetes. A incredulidade de seus pais diante dos avisos sobrenaturais de Joshua pavimenta o caminho para uma série de encontros bizarros. A chegada da irmã adolescente de Joshua, Holly, e seu namorado Arnold, acompanhados por amigos, adiciona mais vítimas potenciais a esse cenário. Os habitantes de Nilbog, que parecem saídos de um conto de fadas perverso, oferecem hospitalidade com um toque mortal: alimentos e bebidas que transformam suas presas em vegetação. É uma premissa que, por si só, já aponta para uma lógica interna bastante particular.

A execução de ‘Troll 2’ parece alheia às convenções narrativas e estéticas a cada cena. O diálogo, muitas vezes sem sentido ou entregue com uma inflexão singular, a performance dos atores — uma mistura de amadorismo genuíno e decisões de direção pouco ortodoxas —, e uma montagem que beira o onírico, tudo converge para uma experiência que se afasta radicalmente do horror tradicional. É um filme que, inadvertidamente, explora as fissuras entre a visão autoral e a percepção do público. O que foi concebido com uma seriedade quase ingênua, ressoa com uma comicidade involuntária que o elevou a um patamar singular de cult. A desarticulação entre a intenção do realizador e o efeito final sobre o espectador transforma ‘Troll 2’ num fascinante estudo de caso sobre como a recepção de uma obra pode moldar, de forma inesperada, seu lugar no panteão cinematográfico.

Longe de ser uma experiência cinematográfica polida, ‘Troll 2’ permanece como um testemunho da capacidade do cinema de criar algo inesquecível, mesmo que por razões não convencionais. Sua estranheza visceral e autenticidade não mediada conferem-lhe uma curiosa autoridade. Não é uma obra que busca aprovação pelas métricas usuais; ela simplesmente é, em toda a sua peculiar glória, e é exatamente essa ausência de pretensão que sela seu legado como um dos mais improváveis – e amados – artefatos da cultura pop.


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