Cultivando arte e cultura insurgentes


“Magic Farm” mistura cumbia, clickbait e caos para zombar do jornalismo gonzo

Amalia Ulman filma cinco jornalistas nova‑iorquinos que, ao errar o destino, inventam um culto rural para salvar a pauta


Avatar de Hernandes Matias Junior

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Cinco nova‑iorquinos chegam à cidade argentina de San Cristóbal acreditando que ali vive um cantor folclórico de coelho na cabeça; descobrem o engano, não admitem culpa e, para não voltar de mãos vazias, resolvem inventar uma seita rural protagonizada pelos próprios moradores . Enquanto improvisam entrevistas e rituais falsos, ignoram que a região sofre há décadas com doenças ligadas a agrotóxicos, assunto real que renderia um documentário urgente . A decisão de maquiar a verdade, liderada pelo produtor Jeff, vira a espinha cômica da trama: câmeras piscam, cachorros carregam GoPros e o público assiste ao nascimento de um “culto” tão oportunista quanto quem o dirige .

Amalia Ulman filma em cores saturadas, aplica lentes olho‑de‑peixe e prende equipamento no dorso de animais, recurso que diverte nos primeiros minutos, mas logo se esgota por repetição . O elenco oscila: Chloë Sevigny encarna a apresentadora vaidosa que disfarça cansaço com pose fashionista; Alex Wolff faz de Jeff um poço de arrogância e ansiedade; Valeria Lois e Camila del Campo, como mãe e filha locais, roubam a cena com humor seco que evidencia o descompasso cultural do grupo. Quando o filme se volta às próprias câmeras, toca no conceito de simulacro de Baudrillard: a imagem criada substitui o fato e passa a valer mais do que qualquer verdade verificável, reflexão que surge sem pedantismo.

O problema é a montagem frouxa. Piadas eficazes se alongam além do timing, conflitos pessoais surgem e somem sem consequência, e o perigo ambiental fica em segundo plano, citado apenas para provar que havia algo sério a investigar. “Magic Farm” conserva frescor na crítica ao jornalismo gonzo e na observação do turismo predatório, mas patina ao tentar costurar tudo num drama coeso; falta-lhe a tensão que sustentaria o riso até o fim.

Ainda assim, há charme suficiente para justificar a viagem. A trilha de cumbia eletrônica marca o ritmo das ruas empoeiradas, a cidade transmite acolhimento sem cair no exótico fácil, e a diretora revela olhar atento para a vaidade de quem transforma qualquer paisagem em manchete. Por isso, a balança pende para o meio‑termo.


“Magic Farm”, Amalia Ulman

MUBI

Avaliação: 3 de 5.

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