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Filme: “The Day After” (2017), Hong Sang-soo

No primeiro dia de trabalho de Song Ah-reum numa pequena editora, a esposa do seu chefe invade o escritório e, num acesso de fúria, a confunde com a amante que acabou de ser demitida. Este violento mal-entendido é o ponto de partida de ‘O Dia Seguinte’, um dos exercícios mais concisos e cortantes de Hong…


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No primeiro dia de trabalho de Song Ah-reum numa pequena editora, a esposa do seu chefe invade o escritório e, num acesso de fúria, a confunde com a amante que acabou de ser demitida. Este violento mal-entendido é o ponto de partida de ‘O Dia Seguinte’, um dos exercícios mais concisos e cortantes de Hong Sang-soo sobre a farsa das relações humanas. Filmado num preto e branco nítido que parece extrair toda a cor e calor do mundo, o longa acompanha as consequências imediatas deste equívoco, desdobrando-se em longas conversas regadas a soju onde a verdade é uma moeda de troca constantemente desvalorizada. Kim Bong-wan, o editor, é uma figura patética de indecisão, tentando gerir a crise com desculpas débeis e meias-verdades, enquanto Ah-reum, interpretada com uma dignidade frágil por Kim Min-hee, tenta navegar pela situação absurda em que foi lançada.

A narrativa não se apoia em reviravoltas, mas na arquitetura de conversas circulares e na repetição de situações que expõem a fragilidade da comunicação e da memória. Hong Sang-soo utiliza seus característicos zooms e planos-sequência não para criar tensão dramática, mas para observar seus personagens com uma curiosidade quase clínica, registando as hesitações, os silêncios constrangedores e as pequenas mentiras que sustentam as interações. A infidelidade em ‘O Dia Seguinte’ é menos o motor da trama e mais o catalisador para uma investigação sobre como as pessoas reescrevem o passado e o presente para se adequarem às suas próprias narrativas. O filme levanta uma questão fundamental sobre a natureza da experiência: o que resta de um encontro intenso quando a memória de um dos envolvidos o apaga por completo?

O resultado é um estudo preciso sobre a inconstância dos afetos e a precariedade com que os indivíduos constroem suas próprias versões da realidade. Sem recorrer a julgamentos morais, a obra de Hong Sang-soo apresenta um cenário onde a honestidade é impraticável e a memória, um campo de batalha subjetivo. A comédia surge do desconforto, da observação da falibilidade humana em seu estado mais puro e desajeitado. Cada diálogo é um microcosmo de evasão e autojustificação, compondo um retrato melancólico e, por vezes, cômico, do que acontece no dia seguinte a uma colisão emocional, quando as palavras já não são suficientes para reparar os danos ou sequer para lembrar o que de fato aconteceu.


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