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Homofobia woke: quando até quem se diz progressista começa a odiar gays

O discurso politizado virou arma contra os próprios gays, em nome de causas que deveriam incluí-los, não rejeitá-los


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Tem circulado pelas redes sociais um novo tipo de discurso contra pessoas gays — e o mais surpreendente é que ele não parte da direita conservadora, de religiosos ou de quem historicamente sempre atacou a comunidade LGBTQIA+. Esse novo tipo de ataque vem, justamente, de pessoas que se dizem progressistas, militantes, defensoras das causas sociais. É o que muitos usuários da internet estão chamando de homofobia woke.

O termo woke, que originalmente se referia ao ato de “estar acordado” para injustiças sociais e raciais, virou sinônimo de uma militância exagerada, que muitas vezes ultrapassa os limites do bom senso. Dentro dessa lógica, está surgindo uma forma curiosa e preocupante de homofobia: uma rejeição aos gays travestida de discurso politizado.

Para entender melhor, basta dar uma olhada em algumas postagens que viralizam com milhares de curtidas. Frases como “odiar gays é inevitável” ou “gays brancos são todos elitistas e racistas sem exceção” têm ganhado espaço em discussões nas redes. E o pior: quem se incomoda com isso é acusado de “não entender o contexto” ou de estar defendendo privilégios. Como se o ódio fosse justificável desde que venha com um certo vocabulário militante.

Em outro exemplo, há quem diga que “para os africanos, a homossexualidade é uma construção social branca e colonizadora”. A frase pretende soar como uma defesa da cultura africana, mas esconde uma ideia perigosa: que a homossexualidade seria algo estrangeiro, algo imposto, algo que pode — e até deve — ser rejeitado. Isso apaga o fato de que pessoas LGBTQIA+ existem em todas as culturas, em todos os tempos, e que o desejo entre pessoas do mesmo sexo não é uma invenção europeia.

Outra vertente da homofobia woke aparece quando mulheres afirmam, por exemplo, que se recusam a se relacionar com homens bissexuais e que isso não é preconceito, e sim uma escolha legítima. Em parte, claro, todo mundo tem o direito de escolher com quem se relaciona. Mas o problema é quando essa escolha vem acompanhada de discursos que alimentam o estigma, como dizer que “homens que se relacionam com outros homens colocam as mulheres em risco maior de doenças”, o que reforça ideias antigas de que gays são “vetores de doenças”.

A verdade é que esse tipo de discurso tenta se esconder atrás de causas legítimas — como o antirracismo, o feminismo, a luta contra o colonialismo — para justificar um desprezo que, no fim das contas, é puro preconceito. O que muda é o tom e a roupagem. Em vez de dizer “não gosto de gays” com ódio aberto, dizem “não gosto de gays porque representam um modelo branco, elitista, patriarcal”. Mas o resultado é o mesmo: uma pessoa sendo rejeitada por sua orientação sexual.

O que mais preocupa é que esse tipo de homofobia vem crescendo dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Muitos gays, ao apontarem esse problema, são silenciados por outras pessoas da comunidade, que dizem que “eles estão fazendo drama”, “querem centralizar a pauta” ou “estão incomodados porque perderam o protagonismo”. Como se os gays — que por tanto tempo foram os maiores alvos de violência, exclusão e marginalização — agora estivessem sendo mimados por querer respeito.

É claro que é importante discutir privilégios dentro da comunidade, reconhecer que nem todas as experiências são iguais e que existem intersecções importantes entre raça, gênero, classe, entre outras. Mas isso não pode se tornar uma justificativa para reproduzir o mesmo tipo de preconceito que sempre foi combatido.

A homofobia woke é sutil, confusa, cheia de rodeios, mas no fim ela faz o que toda homofobia sempre fez: nega a legitimidade da existência gay. E o mais irônico é que isso está acontecendo justamente entre aqueles que dizem lutar por um mundo mais justo.

Se queremos realmente avançar nas discussões sobre diversidade, precisamos ter coragem de apontar essas contradições. Não é porque uma fala vem travestida de militância que ela está isenta de crítica. O respeito à diversidade não pode ser seletivo. Ser gay não é um privilégio, não é um projeto político branco, não é um fetiche colonial. É só uma forma possível de amar e desejar.

A luta por igualdade não pode ser construída às custas de apagar ou rejeitar outras vivências. Senão, estaremos apenas criando uma nova hierarquia de quem merece respeito — e repetindo os mesmos erros que juramos combater.


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