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Filme: “Human Behaviour” (1993), Michel Gondry

Arthur não acorda transformado num inseto, mas a sua metamorfose é igualmente desconcertante. De um dia para o outro, os rituais da vida urbana perdem o sentido. O trânsito matinal, as reuniões de escritório, o deslizar de dedos num ecrã de telemóvel; tudo se revela como uma coreografia bizarra e sem propósito. Em ‘Human Behaviour’,…


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Arthur não acorda transformado num inseto, mas a sua metamorfose é igualmente desconcertante. De um dia para o outro, os rituais da vida urbana perdem o sentido. O trânsito matinal, as reuniões de escritório, o deslizar de dedos num ecrã de telemóvel; tudo se revela como uma coreografia bizarra e sem propósito. Em ‘Human Behaviour’, o novo filme de Michel Gondry, acompanhamos este arquiteto de meia-idade enquanto ele deixa de se sentir parte da sua própria espécie. Ele observa os seus pares com a curiosidade distante de um etólogo a estudar um animal em cativeiro, documentando os seus padrões de acasalamento e as suas hierarquias sociais com uma clareza que o afasta cada vez mais deles.

A sua resposta a esta dissociação não é o isolamento, mas sim a recriação. No seu pequeno apartamento, Arthur começa a construir dioramas detalhados e intrincados do mundo que já não compreende, utilizando materiais do dia a dia. Papelão, lã, embalagens vazias e objetos encontrados transformam-se em cenários onde ele encena as interações sociais que o confundem, numa tentativa de as decifrar. O seu trabalho e a sua vida pessoal começam a desmoronar, mas este universo em miniatura torna-se o seu único refúgio coerente. Clara, a sua companheira, navega entre a preocupação genuína e o fascínio por esta nova e tátil linguagem do namorado, tentando entender se assiste a um colapso mental ou a uma forma radical de lucidez.

A condição de Arthur funciona como uma lupa sobre a ansiedade contemporânea e a fragilidade dos nossos códigos sociais. A sua jornada propõe uma espécie de fenomenologia do quotidiano, onde os gestos mais automáticos são despidos do seu significado adquirido e reexaminados na sua forma mais pura e, por vezes, absurda. Gondry filma esta premissa com a sua conhecida estética artesanal, onde a imaginação visual do protagonista se materializa no ecrã, misturando a realidade cinzenta com explosões de criatividade melancólica. Não há uma busca por uma causa ou uma cura para o estado de Arthur; o interesse do cineasta reside na exploração da sua perspetiva.

O filme articula-se como uma comédia agridoce sobre a alienação, mas o seu verdadeiro foco é a possibilidade de encontrar uma forma de comunicação autêntica quando as palavras e os costumes já não servem. É uma obra que examina a estranheza inerente ao que consideramos normal e a beleza que pode surgir quando alguém se atreve a olhar para o comportamento humano como se fosse a primeira vez, notando a sua mecânica, a sua ternura e o seu completo absurdo.


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