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Filme: “Hienas” (1992), Djibril Diop Mambéty

Em “Hienas”, o diretor senegalês Djibril Diop Mambéty nos leva à poeirenta Colobane, uma vila que vive à margem do desenvolvimento, onde a existência é marcada pela escassez e uma rotina imutável. Essa quietude é violentamente interrompida pelo retorno de Linguère Ramatou, uma figura que, décadas atrás, foi humilhada e expulsa da comunidade. Agora, ela…


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Em “Hienas”, o diretor senegalês Djibril Diop Mambéty nos leva à poeirenta Colobane, uma vila que vive à margem do desenvolvimento, onde a existência é marcada pela escassez e uma rotina imutável. Essa quietude é violentamente interrompida pelo retorno de Linguère Ramatou, uma figura que, décadas atrás, foi humilhada e expulsa da comunidade. Agora, ela retorna não como a pária de outrora, mas como a personificação de uma riqueza avassaladora, envolta em sedas finas e acompanhada de um séquito de luxo. A cidade, em sua ingenuidade e profunda necessidade, vislumbra em Linguère a promessa de redenção econômica, a chave para uma prosperidade há muito sonhada. Contudo, essa generosidade vem com um preço alarmante: em troca da fortuna que pode transformar Colobane, Linguère exige a morte de Dramaan Drameh, um comerciante local que a havia seduzido e abandonado na juventude.

A partir desse dilema central, “Hienas” se desdobra em uma sátira social de aguda perspicácia e uma alegoria sobre as implicações corrosivas do capital. Mambéty constrói uma narrativa meticulosa onde a fibra moral da pequena Colobane é posta à prova. Os moradores, antes coesos por laços de parentesco e vizinhança, sucumbem gradualmente à sedução do dinheiro de Linguère. O destino de Dramaan, que se torna um símbolo da dignidade humana negociável, pende precariamente. O filme observa com um olhar penetrante como a urgência material é capaz de desestruturar os princípios éticos de uma coletividade, impulsionando-a a considerar o impensável para alcançar o alívio econômico. O cineasta utiliza um estilo visual distintivo, quase operático, com movimentos de câmera que hipnotizam e uma sonoridade que evoca as ricas tradições da oralidade senegalesa. A encenação não se apressa; cada quadro é construído para respirar, permitindo que a profundidade dos questionamentos sobre a condição humana se revele em sua crueza.

“Hienas” transcende a mera história de uma vingança pessoal; ele se consolida como uma contundente análise das reverberações do neocolonialismo e da mercantilização da própria vida em um contexto pós-independência. A riqueza de Linguère, supostamente acumulada em empreendimentos na Europa e América, encarna o capital externo que promete avanços, mas que, em essência, demanda a submissão dos valores culturais e sociais. Dramaan, o alvo dessa transação, materializa a inocência negociada. O filme confronta o público com a reflexão sobre a extensão em que a pressão financeira pode deturpar os alicerces de uma sociedade, e como a própria noção de justiça pode ser distorcida quando o poder do dinheiro se torna a única medida. É uma obra que, com sua ironia afiada e uma sensibilidade particular, explora a vulnerabilidade da integridade individual e coletiva diante da promessa de prosperidade, deixando uma impressão marcante sobre a verdadeira natureza do progresso.


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