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Filme: “Macário” (1960), Roberto Gavaldón

Em plena Nova Espanha, durante as fervorosas celebrações do Dia dos Mortos, um homem vive consumido por um desejo tão simples quanto inalcançável: comer um peru inteiro sozinho. Este homem é Macário, um lenhador pobre cuja existência é definida pela fome, um sentimento constante partilhado com a sua mulher e os seus muitos filhos. A…


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Em plena Nova Espanha, durante as fervorosas celebrações do Dia dos Mortos, um homem vive consumido por um desejo tão simples quanto inalcançável: comer um peru inteiro sozinho. Este homem é Macário, um lenhador pobre cuja existência é definida pela fome, um sentimento constante partilhado com a sua mulher e os seus muitos filhos. A sua fantasia não nasce da gula, mas de um anseio profundo por um momento de paz, uma única refeição que não precise de ser dividida pela miséria. Quando a sua esposa, num ato de sacrifício, lhe consegue a ave, Macário foge para a floresta para concretizar o seu sonho, um ato que o colocará no centro de uma negociação cósmica.

Na solidão da mata, prestes a dar a primeira mordida, Macário é interrompido por três figuras distintas. Primeiro, o Diabo, que lhe oferece o mundo. Depois, Deus, que lhe promete o céu. Macário, com a lógica de um pragmático moldado pela desconfiança, recusa ambos. A sua escolha recai sobre o terceiro visitante, uma figura esquelética e austera: a Morte. Ele partilha o seu peru com ela, argumentando que a Morte é a única força verdadeiramente justa e imparcial, que não distingue entre ricos e pobres. Em troca deste gesto de camaradagem, a Morte concede-lhe um dom: uma água milagrosa capaz de curar qualquer doença, mas com uma condição. Se a Morte estiver aos pés do leito do doente, a cura é possível; se estiver à cabeceira, o destino daquela pessoa está selado.

O que se segue é a ascensão e o inevitável embate de Macário com um mundo que não estava preparado para o seu poder. De curandeiro local a figura de renome, ele acumula uma riqueza que nunca imaginou, mas atrai a atenção de forças perigosas: a Igreja, através da Inquisição, e a medicina oficial, que veem nele uma ameaça à ordem estabelecida. O filme de Roberto Gavaldón, a partir deste ponto, desdobra-se numa análise visualmente impressionante sobre poder, destino e a condição humana. A câmara de Gabriel Figueroa não apenas regista a pobreza com uma dignidade quase neorrealista, mas também constrói um universo fantástico com sombras e luzes que evocam o expressionismo alemão, transformando a fábula popular numa experiência cinematográfica de enorme sofisticação.

A jornada de Macário é, em sua essência, um exercício de memento mori, uma exploração da nossa relação com a mortalidade. A sua tentativa de gerir a vida e a morte, de ser o intermediário do destino, o leva ao clímax na gruta da Morte, uma caverna iluminada por incontáveis velas, cada uma representando uma vida humana. É aqui que a narrativa transcende o conto folclórico para se tornar uma poderosa alegoria sobre a fragilidade da existência. A obra de Gavaldón nunca oferece uma conclusão definitiva sobre a natureza da experiência de Macário, deixando em aberto se tudo não passou de um delírio febril de um homem faminto ou de um encontro genuíno com o sobrenatural. É essa ambiguidade que cimenta o lugar de Macário como uma peça fundamental do cinema mexicano, uma obra que examina a estrutura social e as questões existenciais com a mesma elegância e poder visual.


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