Uma companhia de teatro italiana chega a Paris para uma curta temporada com a peça “Come tu mi vuoi” de Luigi Pirandello. A atriz principal, Camille, retorna à cidade que abandonou três anos antes, deixando para trás um relacionamento inacabado com Pierre, um professor de filosofia. Enquanto Camille hesita em reencontrar seu passado, o diretor da trupe e seu atual parceiro, Ugo, mergulha numa busca obsessiva por uma peça perdida de Goldoni, supostamente um manuscrito de valor inestimável. Assim se desenrola o enredo de “Quem Sabe?”, um filme de Jacques Rivette que opera menos como um drama e mais como uma elegante coreografia sentimental, onde as buscas de seus personagens se cruzam e se espelham pelas ruas, apartamentos e teatros parisienses.
O que se segue é uma delicada dança de encontros e desencontros. A busca de Camille por um encerramento com Pierre a coloca em contato com a atual namorada dele, Sonia, e a força a confrontar a pessoa que ela foi. Simultaneamente, a caça ao tesouro de Ugo o leva a conhecer Do, uma jovem magnética que possui uma ligação com o manuscrito, e o meio-irmão dela, Arthur, um ladrão de livros charmoso e pouco confiável. O filme entrelaça essas duas jornadas paralelas com a precisão de uma comédia de costumes, criando um jogo de pares que se formam, se desfazem e se reconfiguram com uma naturalidade desconcertante. Cada personagem procura algo: uma peça, um amor perdido, uma resposta, uma versão de si mesmo.
A peça de Pirandello que encenam, sobre uma mulher cuja identidade é questionada por todos ao seu redor, funciona como o motor conceitual da narrativa. A questão não é apenas se Camille é a mesma pessoa que Pierre conheceu, mas se alguma identidade é, de fato, fixa. O filme sugere que não. A identidade aqui não é uma essência a ser encontrada, mas um fluxo constante de “devir”, uma construção moldada pelas relações, pelo tempo e pela própria arte. Camille não está simplesmente atuando no palco; sua vida se tornou uma performance onde ela testa diferentes papéis em sua interação com Ugo e Pierre. O filme investiga como o amor e a memória não recuperam o que fomos, mas nos transformam no que seremos.
A direção de Jacques Rivette opera com uma leveza notável, distante do peso existencialista que o tema poderia sugerir. Seus longos planos-sequência não servem para criar tensão, mas para dar aos atores o espaço para habitar seus personagens e para que as interações respirem com a espontaneidade da vida real. Paris não é um cartão postal, mas um mapa de possibilidades, uma geografia afetiva onde cada esquina pode levar a uma revelação ou a um novo equívoco. “Quem Sabe?” é uma brincadeira séria sobre a performance do eu, um filme que encontra profundidade no acaso e celebra a beleza das incertezas, oferecendo um charme intelectual que é ao mesmo tempo sofisticado e imensamente prazeroso de assistir.




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