Em meio ao calor e à ordem de Singapura em 1992, uma adolescente chamada Sandi Tan, armada com uma sensibilidade punk e uma paixão pelo cinema de Jim Jarmusch e David Lynch, decide criar algo inédito em seu país: um road movie independente e surrealista. Junto de suas amigas Jasmine Ng e Sophie Harvey, ela escreve e estrela ‘Shirkers’, um projeto filmado em vibrantes rolos de 16mm. A guiá-las, uma figura enigmática e mais velha, o americano Georges Cardona, que atuava como diretor e mentor. Ele era o adulto na sala, o homem que prometia levar a visão delas para o mundo. Após o término das filmagens, Cardona desapareceu, levando consigo todas as latas de filme e, com elas, o futuro criativo de Tan.
Vinte anos mais tarde, os rolos de ‘Shirkers’ reaparecem, intactos mas completamente desprovidos de som. O documentário ‘Shirkers: O Filme Roubado’, disponível na Netflix, é a tentativa de Sandi Tan de desvendar esse mistério e, mais importante, de reconstruir a história por trás do roubo. O que se desenrola não é um simples lamento por uma obra perdida, mas uma fascinante investigação sobre memória, amizade e traição. Tan viaja para os Estados Unidos para interrogar a viúva de Cardona, revisita as locações com suas antigas colaboradoras e mergulha em sua própria correspondência com o homem que orquestrou seu maior sonho e sua maior decepção. As imagens silenciosas do filme original funcionam como espectros de um futuro que nunca chegou, um portal para a juventude e a audácia de um grupo de garotas que ousou criar arte num ambiente que não a incentivava.
Ao costurar o material recuperado com entrevistas atuais e animações que preenchem as lacunas da narrativa, Sandi Tan faz mais do que contar a história de um crime cinematográfico. Ela examina a complexa dinâmica do poder e da mentoria, questionando como a validação de uma figura de autoridade pode simultaneamente nutrir e destruir o impulso criativo. A obra é também um valioso documento sobre uma Singapura que raramente chega às telas, uma nação em plena transição, vista através dos olhos de jovens que se sentiam desajustadas. No processo de montar este documentário, Tan finalmente completa seu filme. Não o ‘Shirkers’ de 1992, mas uma obra mais madura e agridoce sobre a impossibilidade de recuperar o passado e a necessidade de dar-lhe um novo significado. É um estudo sobre como uma ausência — a de um filme, a de um som, a de um homem — pode, paradoxalmente, gerar uma presença artística poderosa e singular.




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