Em um apartamento caótico na Varsóvia, uma estudante anônima, conhecida apenas como “A Italiana”, vive de forma impulsiva, movida por uma energia que parece desconhecer limites. Sua trajetória se cruza com a de Michał, um professor de antropologia metódico e imerso em sua pesquisa acadêmica. O encontro, aparentemente casual, dá início a uma relação de intensidade avassaladora, onde a atração física se torna o epicentro de um vórtice de obsessão e descontrole. O filme Szamanka, do diretor polonês Andrzej Żuławski, documenta essa ligação perigosa, situando-a em uma Polônia pós-comunista que busca uma nova identidade, um cenário tão desnorteado quanto seus personagens.
A narrativa ganha uma dimensão arqueológica quando a equipe de Michał descobre, em um pântano, o corpo perfeitamente preservado de um xamã de dois mil anos. Enquanto o professor tenta dissecar racionalmente o passado e os segredos contidos naquele corpo ancestral, sua vida pessoal é invadida por uma força igualmente primitiva e inexplicável: a presença da Italiana. Żuławski constrói uma potente dialética entre o impulso dionisíaco, representado pela fúria corporal e instintiva da jovem, e o princípio apolíneo da razão, que guia a investigação científica de Michał. A câmera frenética, uma assinatura do cineasta, segue os corpos em movimento, explorando a fisicalidade como veículo de estados psicológicos extremos, transformando o sexo e a violência em uma linguagem própria, crua e desprovida de artifícios.
O desempenho de Iwona Petry como a Italiana é um dos pilares da obra, uma entrega física e emocional que dissolve as fronteiras da atuação convencional. Sua performance visceral contrasta diretamente com a contenção calculada de Bogusław Linda, cujo personagem se desintegra à medida que o controle sobre sua própria racionalidade se esvai. Szamanka não se ocupa em julgar ou explicar seus personagens, mas em apresentar o choque inevitável entre mundos opostos. O filme funciona como um estudo sobre a erupção do arcaico no seio da civilização, investigando como os instintos mais antigos podem dominar a lógica moderna. É uma peça singular dentro do cinema polonês dos anos 90, um trabalho que articula o mal-estar de uma nação através de uma história profundamente pessoal e universalmente inquietante.




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