Sob as pontes de uma Paris outonal e desglamourizada, vive Andreas Kartak, um homem que perdeu tudo, menos um peculiar código de honra. Sua rotina de despossessão é subitamente interrompida por um ato de generosidade inexplicável: um estranho elegante oferece-lhe duzentos francos, com uma única condição. A dívida não é com ele, mas com Santa Teresinha de Lisieux, e o pagamento deve ser feito como uma oferenda na igreja de Sainte-Marie des Batignolles. Para Andreas, um beberrão cuja vida é regida pelo próximo copo, essa promessa se torna o eixo moral de sua existência, uma missão sagrada que ele abraça com a seriedade de um cavaleiro errante. O filme de Ermanno Olmi, baseado na novela de Joseph Roth, acompanha a jornada de Andreas para saldar essa dívida, um percurso que se revela surpreendentemente sinuoso.
Cada vez que Andreas acumula o dinheiro necessário, o destino, ou talvez uma força mais zombeteira, intervém. O mundo parece conspirar para mantê-lo solvente, mas perpetuamente em dívida. Encontros com figuras de seu passado, como uma antiga amante, ou a súbita necessidade de um amigo, desviam os duzentos francos de seu destino sacro para os prazeres e as obrigações imediatas da vida. O dinheiro flui para ele de fontes inesperadas, quase milagrosas, mas escorre por entre seus dedos com a mesma facilidade, geralmente em direção ao balcão de um bistrô. A estrutura narrativa se desenrola como uma fábula circular, onde a intenção de pagar a dívida é o motor constante, e o adiamento, o resultado inevitável.
Rutger Hauer, despido de seus papéis icônicos e imponentes, entrega uma performance de imensa dignidade e contenção. Seu Andreas não é um retrato lastimoso da indigência. Há uma nobreza em sua postura, uma clareza em seu olhar, mesmo quando turvado pelo álcool. Ele é um homem com um centro, e esse centro é a sua palavra. A direção de Olmi é igualmente paciente e observadora, focando nos pequenos rituais, nos gestos silenciosos e na luz melancólica que banha os interiores dos cafés e os quartos de hotel baratos. Não há julgamento na câmera do cineasta, apenas um interesse profundo pela alma de um homem que navega por um mundo que o abandonou, mas que paradoxalmente continua a lhe oferecer dádivas.
A obra funciona menos como um estudo sobre o alcoolismo e mais como uma exploração cinematográfica do conceito teológico de graça. Andreas é um recipiente passivo de uma benevolência que ele não pede nem entende. O dinheiro simplesmente aparece, como um presente imerecido, permitindo que ele sobreviva mais um dia, tenha um bom jantar, compre um terno novo. Sua luta não é para superar um vício, mas para conseguir direcionar essa graça recebida para o propósito que ele mesmo se impôs. A dívida com a santa se torna a sua única forma de agência, a tentativa de dar um sentido transcendente a uma existência materialmente despojada. Ele é um homem que vive de milagres mundanos, mas seu único objetivo é realizar um ato de fé deliberado.
Visualmente, o filme constrói uma Paris que existe fora do tempo, um lugar de névoa, paralelepípedos úmidos e interiores quentes e amadeirados. A fotografia de Dante Spinotti valoriza as texturas e os rostos, criando uma atmosfera que é ao mesmo tempo realista e onírica. A jornada de Andreas, que culmina na igreja, não busca oferecer uma redenção clara ou uma lição moral. Em vez disso, o trabalho de Ermanno Olmi, vencedor do Leão de Ouro em Veneza, se firma como uma parábola delicada e profundamente humana sobre a honra, a fé e os caminhos misteriosos pelos quais a salvação e a perdição podem, por vezes, partilhar o mesmo copo de vinho. É um retrato de um homem cuja integridade reside precisamente na sua contínua e nobre tentativa de cumprir uma promessa.




Deixe uma resposta